22 novembro 2008

CELEBRANDO DIONÍSIO

Em consideração à proposta havida em aula, na Ufal, de dispormos, a turma vespertina do 6º semestre do curso de Letras, da electiva Poesia Erótica, dou a lume aqui uma contribuição minha para esse tema. Poema composto há alguns meses e que retomei para reelaboração e metrificação. Tenham aí o esboço:


Corpora


Fundos os vales do teu púbis,
Selva sombria, imane...
De onde a custo saio,
Tão preso estava em seus liames.

Ao frêmito do gozo estremeço
Enquanto te ouço ranger os dentes...
Tinhorão edaz, esfaimado cróton
É teu sexo sanhoso e ardente!

Assim, tal Bacante em cio profano,
Tu és a dona do abismo
Que me toma ao vórtice
Desse gozo-cataclismo!!!

Todavia, quase sucumbo...mortal demais!
Insano sonhador vencido de marasmo...
Nesse embate de carnes, suor e gemidos
Me dás a inspiração do teu orgasmo.

E, gozando, ainda mais me enredo
No vermelho, foguento sexo fundo
Pelo que, cheio de aljôfares de sêmen,
Me dás a entender o mundo!

12 novembro 2008

ALMA GÉLIDA...


Malgrado a bela imagem acima de minha cidade, meu clima caro é do frio com céu de chumbo num ambiente penumbroso com arquitetura gótica e telas de Bosch, Brugel, Rembrandt. Viver sob o calor impiedoso do nordeste brasileiro é um tormento!

08 outubro 2008

William-Adolphe Bouguereau


As Ninfas e o Sátiro, o belo traço de William-Adolphe Bouguereau, pintor francês, um dos mestres da pintura do século 19, embora não tenha sido tão celebrado em sua época. Seus motivos clássicos, como sátiros, ninfas, cupidos e o realismo fotográfico de suas encantadoras mães com filhos no regaço, além de moçoilas de olhar eternecido fizeram-no do gosto de muitos colecionadores.

Aos interessados, deixo um enlace para o sítio de arte Art Renew que reúne um notável acervo pictórico de mestres antigos e contemporâneos, onde se pode encontrar, evidente, algumas obras da galeria de Bouguereau.



Arte, a vida sem ti é quase nada!

08 setembro 2008

Escritores da Liberdade - Freedom Writers (EUA - 2007)


Qual a função de um professor em sentido amplo? Apenas ministrar aulas como que para infundir conhecimento nos alunos, meros receptáculos? Preencher cadernetas, aplicar provas? E quanto a conhecer os alunos postos sob sua responsabilidade, na sua individualidade, atravessados por conflitos reais de ordem social, étnica, familiar etc e que, certamente, interferem na sua interacção com ambiente escolar?
Escritores da Liberdade é um filme baseado na história real de Erin Gruwell (Hilary Swank), uma professora que assumiu o desafio de ir além das aparências e limitações do sistema que envolve a educação pública. Quis e conseguiu fazer aflorar a dimensão humana da relação entre aluno e mestre, compreendendo suas histórias de vida, dificuldades, dúvidas e incertezas e lidando com os preconceitos de cor, condição social e com a violência sedutora das ruas que forja, nas periferias, uma triste vitrina de auto-afirmação para a juventude norte-americana, a das gangues. Como professora de língua e literatura inglesa, Erin assume uma turma segregada por esses males, indisciplinada e hostil, formada de jovens provindos, em sua maioria, de reformatórios e obrigados a cumprir penas condicionais para não tornar à detenção. Assim, fatalmente, sua freqüência escolar é forçada e a convivência uns com os outros, extremamente difícil, sobretudo devido à segregação racial em quer se encontram. A intolerância e a descrença na integração fomentada pelo receio da histórica opressão branca sobre as demais raças caracteriza inicialmente a relação entre os diversos grupos étnicos -orientais, negros, latinos, brancos - e a professora, cujo empenho não é compreendido,sendo, até mesmo, ridicularizado e havido como uma estratégia branca de dominação. Como agravante de suas frustrações, os demais professores mostram-se poucos dispostos a ajudá-la e a aceitar seus métodos, além do sistema burocrático, absorvedor, estático, minimamente humano e estandardizado demais com regras inflexíveis e improfícuas. Acreditando mais nas potencialidades latentes de seus alunos do que eles mesmos, Erin cria um ciclo de leituras inicialmente baseado em reflexões sobre a vida e as crenças da menina judia Anne Frank, a partir do famoso livro O Diário de Anne Frank em que a jovem relata seus dias de aprisionamento nos campos de concentração nazista. Por ter sido branca e oprimida, Anne Frank constitui exemplo de que não importam raça, cor ou condição social para sofrer preconceitos e exclusão. Assim, sugere aos alunos que, a exemplo da garota judia, escrevam seus próprios diários confessando os anseios, medos e fatos que marcaram suas carreiras juvenis, criando uma ligação com o mundo externo, um meio de comunicação de que não se ressentissem pelo temor de serem incompreendidos. O programa incluía não apenas leitura, mas visitas ao Museu da Tolerância com informaçõessobre o holocausto. Concebe-se, assim, uma forma de reflexão sobre preconceitos, suas raízes e conseqüências de sorte a transformar os jovens, dando-lhes a oportunidade da superação individual e do desenvolvimento da consciência de serem sujeitos sociais. Escritores da Liberdade é uma ode ao poder da educação engajada, levada à realização pelo esforço humanitário e consciente de professores que acreditam na capacidade de superação das potencialidades humanas. Em 1999, os escritos dos alunos da professora Erin forem coligidos e publicados, apesar das dificuldades impostas pela indústria editorial.

Convém considerar a boa trilha sonora do filme com destaque para a canção A Dream dos rappers Common e Wi.lli.am. Para ver o clipe, preme aqui.


02 setembro 2008

Brueghel, Pintor-Anatomista


Tela de Pieter Brueghel, O Velho, assim apodado para distinguir-se de outros membros de sua família, a saber, seus filhos também pintores que, juntos, constituíram uma das mais importantes famílias de artistas flamengos da Europa. Brueghel, O Velho, provavelmente nasceu em Breda, na Holanda e suas obras refletem seu fundo interesse pelo comportamento humano, sobretudo transvisto em situações do cotidiano do homem europeu do século XVI. Seu traço inicial revelava a influência de outro gênio da pintura flamenga, Hyeronimus Bosch. Com o tempo, no entanto, seu estilo ganhou visos próprios. Brueghel tinha apreço pela retratação das loucuras e fraquezas humanas, pela minúcia colhida da vulgaridade do dia-a-dia, os vícios e os comportamentos que se ossificavam na cultura popular.
Retratando com uma precisão anatomística a vida nas periferias e no campo, as obras de Brueghel constituem um dos mais valiosos documentos sobre o modo de vida da sociedade européia dos princípios da Idade Moderna. Junto com seus filhos, Brueghel Moço e Brueghel Veludo, formaram uma dinastia de pintores que se prolongou até o século XVIII.
A tela em exibição é a dos Ditados Populares. Numa aldeia típica do período, o pintor representa, através de gestos e comportamentos, uma série de expressões populares em voga na Europa da época e que chegaram, por tradição, ao nosso século.

29 maio 2008

Autonomia da Arte e Valores Cristãos


Jean-Paul Sartre estabelece em Qu'est la littérature ? a necessidade premente, na vida, da literatura, pois viver exige contato vital com essa força miraculosa chamada arte literária. Para Sartre, não basta apenas escrever, é necessário, a partir da realidade histórica, fazer da obra uma outra realidade que estabeleça um contrato com o leitor a fim de tentar situá-lo no mundo. O filósofo francês concebia literatura como engajamento e disciplina a serviço do homem.

Para Antônio Cândido, obra literária é filha do mundo porque parte de dados documentais, mas como uma produção artística que se rege por regras próprias, constitui outro mundo que faz sentir melhor o primeiro, posto "estar reorganizado pela fatura" Esse é um dos sentidos de se fazer literatura, convocar fatos empíricos e dar-lhes vestes de ficção sem, no entanto, deixar de comunicar um profundo sentimento de vida, e reorganizando-os através de avanços e recuos, fazer sentir melhor a realidade da existência humana. Fazer senti-la melhor, não fazer vê-la como melhor, posto a literatura estar desobrigada do ônus e do desdouro de ser o sorriso da sociedade.

Esse princípio é aplicável a toda forma de arte, não apenas à literatura, como o cinema e o teatro, por exemplo. Ele exclui e condena a risível e suposta influência perniciosa que muitos apedeutas desinformados atribuem a certas categorias artísticas sob a mediação da religião. São recorrentes as atitudes de alienação desses truões que, valendo-se de seu influxo midiático, arrebatam multidões para seu circo de negação e injúria à arte. A incapacidade (ou má vontade) de discernir ficção de realidade objetiva e, nessa diferenciação, de perceber a relação estética na tessitura entre forma e conteúdo, é causa gritante de tantas aberrações que se proliferam nos meios cristãos quanto à relação do homem com certos tipos de arte. Isso se manifesta em termos tais quais:

Quanto aos filmes, é preciso ter o bom senso de assistir apenas aquilo que não traga dano à nossa comunhão com o Senhor. É comum nas telas, o errado tornar-se certo e o certo em errado, por exemplo, inúmeros filmes trazem personagens declaradamente maus, bandidos, assassinos, etc. que arrebatam a aprovação e até mesmo, o desejo de vê-los se dar bem. É o compactuar com as obras das trevas. É licita tal diversão? Jesus ocuparia o seu tempo assistindo filmes abertamente contrários aos princípios de Deus?

(extraído do sítio cristão Vivos!)

Indivíduos como o autor do excerto acima incorrem numa forma insultante de vaidade para qualquer cristão sensível à mais elevada das expressões humanas, a arte. Essa vaidade, parece-nos, lhes permite arrogarem para si o título de psicólogo de Cristo. Para eles, Jesus não tem mais onisciência, pois lhes deve a obrigação da consulta para fazer isso ou aquilo. Desconhecem esses teólogos de araque que a maldade retratada das ações humanas no cinema é apenas aspecto da práxis imediata da vida cotidiana captável por uma forma de conhecimento colocado em nível superior, a estética. Não basta somente entender uma obra pela sua mensagem ou pela sua forma. Convém, necessariamente, compreender que o fazer estético é parte do fazer social e histórico que deu origem à obra de arte, seja ela escrita, pintada numa tela, filmada ou esculpida.

A arte atrai a natureza por um certo meio, a mímese, que é, portanto, um princípio estético-ficcional pelo que não cabem, ao se falar de filmes, romances, pintura, desenhos, gravuras, música, teatro etc recriminações como a da citação acima, pois estas comportam apenas preconceito e falta de metodologia crítica.

Ademais, a literatura brasileira e mesmo a universal, como forma de arte, atraem mimeticamente formas naturais que, vistas pela ótica tacanha de que tudo que não “louva a Deus” é estupendamente demoníaco ou sem proveito para os santos, pareceriam chocantes e anti-bíblicos. Que dizer de Machado de Assis que meteu em suas obras um sabor humorístico fazendo jocosidades de certos valores humanos, ao conceber personagens como Marcela, prostituta interesseira; Capitu, uma esfinge de segredos pontificada como modelo de mocinha que vê no casamento um meio de subir na vida; Brás Cubas, indivíduo ocioso que abusa de sua condição aristocrática? Seria a maior figura de nossas letras indevida para um crente, por que incorpora temas “biblicamente condenados” como cartomancia, adultério, vaidade, assassinato, crueldade etc?

E quanto a Émile Zola, romancista francês, um dos expoentes máximos do naturalismo literário, que, como um anatomista, dissecou a corrompida alma humana quando entregue aos seus instintos? Seria a leitura de Madame Bovary, a história de uma adúltera, ilícita? Aluísio Azevedo que, em O Cortiço, desvelou o atoleiro moral do ser humano apoderado pela cobiça, luxúria e competitividade capitalista, nosso ilustre romancista estaria no índex das proibições bíblicas por que desnuda a realidade por meio da arte?

Em síntese, quando Paulo adverte os coríntios de que todas as coisas são lícitas, mas nem todas convém, ouso dizer que pensou com a racionalidade e o bom senso que sugiro adotar com o presente arrazoado, pois a arte nada deve à realidade.

24 abril 2008

Minha Pátria é minha Língua


Tenho acompanhado os tópicos de uma comunidade sobre o português falado no nordeste, e me sinto na obrigação de reagir contra a orgia odiosa de insultos e asneirices vomitada por uma criatura que, como certo se vê, nada entende de lingüística e de história, ao se dar à audácia de valorar uma variante lingüística em detrimento de outra e uma região geográfica em desprezo de outra.

Mesmo havendo, no curso da história, uma crescente afirmação do combate às variadas formas de preconceito, a mostrar que elas nada têm de verdade, nada de fundamentado cientificamente, mas são meros frutos bichados da ignorância crassa, da intolerância estúpida ou da manipulação ideológica, deparamos a fatalidade de encontrar pessoas como a autora dos comentários preconceituosos contra o nordeste que, parece-nos, não se cabe na sua total falta de respeito humano, na sua desmedida obtusão intelectual e se sente na necessidade de vomitar suas imundícias pelo simples prazer do agravo.

Pessoas assim são, infelizmente, uma incontornável desgraça na vida dos que aprendem, evoluem e se agigantam por cultivar o respeito e o bom senso e vêem esses hereges preconceituosos ficar cada vez mais para trás, cada vez mais rígidos e encarquilhados naquela forma de preconceito que é, de todas, as mais lamentável: a de livre escolha por uma inteiriça falta de orientação na vida.

Só no plano lingüístico, a opinião chacoteira da garota choca por revelar o quanto ela está atordoada pelas travancas da ignorância. Dizer que um sotaque é feio é, no mínimo, uma confissão vergonhosa de desinformação. É uma atitude que revela absoluta falta de conhecimento dos sutis mecanismos de uma língua que é um sistema com tendência à variação, ocorrendo em todos os níveis. Segundo Edward Sapir, “é justamente porque a língua é um tipo de comportamento, assim como tudo numa cultura, e também porque ela revela, em suas linhas gerais, regularidades que só o cientista tem o hábito de formular, que a lingüística é de estratégica importância para a ciência social. Por trás de uma aparente ausência de regras do fenômeno social, existe uma regularidade na sua configuração que é tão real quanto aquela dos processos físicos do mundo...”

Só para dar um exemplo de variação fonética, nível lingüístico em que os nordestinos estão sendo tripudiados, posso citar uma variável presente no inglês americano: o ditongo de termos como “bride” e “alive”, por exemplo, não é pronunciado de acordo com a norma padrão nos estados do sul, sobretudo no Mississipi e Alabama. A pronúncia mais comum, nesses estados, é um /a/ alongado, representado /a:/, segundo Woods (2001). Dizer a um norte-americano do sul que seu sotaque é feio ou errado é chocá-lo pela ausência de um saber elementar de que as línguas variam.

E, para exemplificação mais nossa, pode-se citar o que ocorre nas regiões banhadas pelo Tietê, onde há troca do “l” pelo “r”, fenômeno conhecido como rotacismo, assim: arto por alto, iguar por igual etc, por influência da língua dos indígenas, que não conheciam o fonema “l”, mas apenas o som de “r” e diziam “surará” como corruptela de “soldado”. Há, enfim, uma constelação de fatos que, por seu valor empírico, á h`H,lll sssssss

tem bastante poder impugnatório para fuzilar a arrogância descabida de uma molecota ainda de cueiros que desconhece o próprio país. Ela nada mais é que isso: uma criança em atraso mental masturbando suas pretensões a adulto. Suas ofensas contra o nordeste são apenas o produto de um onanismo cerebral inútil, de uma petulância banal e elitista violentamente incomodada.

10 abril 2008

05 abril 2008

Flânerie


Hoje pela manhã, acordei de um modo raro: confortável. Senti prazer nas formas do meu quarto, sempre em desalinho após a aurora, resultante, umas vezes, do embate de corpos da noite anterior; outras, do torvelinho de um sono agitado e desprazeroso. Mas o canto da patativa que se aninhou em meu telhado realmente ressumou n'alma algo de gozoso. O calor do Hades que não raramente acompanha as manhãs de outono neste cáustico nordeste hoje não me perturbou. Os sons da gente ímpia da ruas em seu imutável caminhar de alto a baixo sob minha varanda chegou a causar-me o habitual taedium uitae, mas suportei-o bem.
Assim, saí às ruas, tal flâneur dos trópicos, com a imagem do flâneur francês no espírito. E, num recitar de seus versos, ocorreram-me outros, de Cesário Verde. Um belo poema que descreve um movimento de passeio através das ruas, incorporando cada fato, ato, gesto, como se o poeta sobrevoasse a cidade e captasse sua agitação, seu bulício tal como se estivesse munido de uma câmera de lente de alta sensibilidade. Chama-se Ave-Marias.


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,

Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia

Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.


O céu parece baixo e de neblina,

O gás extravasado enjoa-me, perturba;

E os edifícios, com as chaminés, e a turba,

Toldam-se duma cor monótona e londrina.


Batem os carros de aluguer, ao fundo,

Levando à via férrea os que se vão. Felizes!

Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!


Semelham-se a gaiolas, com viveiros,

As edificações somente emadeiradas:

Como morcegos, ao cair das badaladas,

Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.


Voltam os calafates, aos magotes,

De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;

Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,

Ou erro pelos cais a que se atracam botes.


E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!

Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jamais!


E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

De um couraçado inglês vogam os escaleres;

E em terra num tinir de louças e talheres

Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.


Num trem de praça arengam dois dentistas;

Um trôpego arlequim braceja numas andas;

Os querubins do lar flutuam nas varandas;

Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!


Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.


Vêm sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

E alguns, à cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas.


Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;

E apinham-se num bairro aonde miam gatas,

E o peixe podre
gera os focos de infecção!

24 fevereiro 2008

A Menina Morta - Cornélio Penna


“Com esforço, ao fim de várias tentativas(...) o carro pode entrar na balsa. Dentro em pouco a enorme barcaça, ainda maior só com aquele veículo negro deslizava pelas águas sussurrantes, que pareciam rir e conversar em surdina. Talvez as ondas rápidas, amarelas, contassem umas às outras a história muito curta e risonha da menina vestida de cetim brocado, com a pequena coroa de rosas que era prisioneira entre paredes de madeira rude, escondida pela seda branca, sobre ela esticada.”





O trecho acima faz parte do romance A Menina Morta, de Cornélio Penna, um romancista lamentavelmente desconhecido da maioria dos brasileiros e que escreveu uma das maiores obras da ficção intimista de nossas letras. A Menina Morta é um romance profundo, de atmosfera, conforme classificou Alfredo Bosi em sua História Concisa da Literatura Brasileira.
Produzindo nos primeiros anos do século 20, Cornélio Penna, nascido em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1896, escreveu um dos mais envolventes textos em prosa cujos leitores, segundo Luís Costa Lima, contam-se nos dedos. Um texto que supera a subjetividade e que vai além da tradição da época, pois, quando surgiu, os seus contemporâneos eram tributários da prosa regionalista que então imperava. Vejam-se Graciliano Ramos, Raquel de Queiróz, Jorge Amado, Érico Veríssimo, por exemplo.

19 fevereiro 2008

O Corvo (Edgar Allan Poe) e A Cabeça de Corvo (Alphonsus de Guimaraens)



Os versos de Alphonsus de Guimaraens que formam o poema “A Cabeça de Corvo”, pela atmosfera sombria, noturna, arrastada que a obra infunde, mesmo numa leitura rápida, para um leitor atento e familiarizado com composições que fazem aflorar sensações angustiantes e perturbadoras, facilmente sugerem um paralelo com uma das obras mais admiráveis da literatura ocidental: O Corvo, de Edgar Allan Poe, poeta, contista e ensaísta norte-americano de vida atribulada que não raramente fazia refletir em suas obras.

É esse paralelo, que salta-nos à vista, o objeto deste artigo. O Corvo tornou-se mundialmente conhecido e inscreveu seu autor, citando Oscar Mendes, no panteão dos poetas imortais. Tais foram a arte e o labor que envolveu a composição do poema que, segundo provas, levou Poe a consumir anos de reflexão cujo processo lógico, cuidadoso, apurado, ele não dispensou de comentar em seu também famoso escrito Filosofia da Composição em que explicita, passo a passo, as minúcias do seu trabalho produtivo.

Como um dado curioso, vale dizer que Poe repelia a idéia de inspiração mágica que certos autores, especialmente poetas, assumiam para atestar o meio pelo qual compunham. Diz ele:

Muitas vezes pensei quão interessantemente podia ser escrita uma revista por um autor que quisesse – isto é, que pudesse – pormenorizar, passo a passo, os processos pelos quais qualquer uma de suas composições atingia seu ponto de acabamento. Por que uma publicação assim nunca foi dada ao mundo é coisa que não sei explicar, mas talvez a vaidade dos autores tenha mais responsabilidade por essa omissão do que qualquer outra causa.

(POE, Edgar Allan. Obras Completas, 1998)

Das inúmeras traduções em língua portuguesa de O Corvo, preferi a de Gondin da Fonseca, por estar metricamente mais próxima do original inglês, e, como não convém, neste desambicioso trabalho, uma abordagem demasiado aprofundada do poema de Poe, houve por bem apenas transcrever parte dele, suficiente para se perceber seu eco no poema de Alphonsus de Guimaraens.

O CORVO, Edgar Allan Poe

Certa vez, quando à meia-noite eu lia, fraco, extenuado,

um livro antigo e singular, sobre doutrinas do passado,

meio dormindo – cabeceando – ouvi uns sons, trêmulos, tais

como se leve, bem de leve, alguém batesse à minha porta.

“É um visitante”, murmurei, “que bate, leve, à minha porta.

Apenas isso e anda mais.”

Bem me recordo. Era em dezembro. Um frio atroz, ventos cortantes...

Morria a chama no fogão, pondo no chão sombra errantes.

Eu nos meus livros procurava – ansiando as horas matinais –

um meio (em vão) de amortecer fundas saudades de Lenora

- bela adorada, a quem, no céu os querubins chamam Lenora,

e aqui ninguém chamará mais.

E das cortinas cor de sangue, o arfar soturno e brando e vago

causou-me horror nunca sentido – horror fantástico e pressago.

Então, fiquei (para acalmar o coração de sustos tais)

a repetir: “É alguém que bate, alguém que bate à minha porta;

algum noturno visitante, aqui batendo à minha porta;

é isso, é isso e nada mais.”

Fortalecido já por fim, brado perdendo a hesitação:

“Senhor! Senhora! quem sejais, se demorei, peço perdão!

Eu dormitava, fatigado, e tão baixinho me chamais,

bateis tão manso, mansamente, assim de noite à minha porta,

que não é fácil escutar.” Porém só vejo, abrindo a porta,

escuridão e nada mais.

Perquiro a treva longamente, estarrecido, amedrontado,

sonhando sonhos que, talvez, nenhum mortal haja sonhado.

Silêncio fúnebre! Ninguém. De visitante nem sinais.

Uma palavra apenas corta a noite plácida – “Lenora.”

Digo-a em segredo, e num murmúrio, o eco repete-me Lenora.

Isso somente - e nada mais.

Para o meu quarto eu volto enfim – sentindo n’alma estranho ardor,

e novamente ouço bater, ouço bater com mais vigor,

“Vêm da janela”, presumi, “estes rumores anormais,

Mas eu depressa vou saber donde procede tal mistério.

É o vento, o vento e nada mais!”

Eis, de repente, abro a janela, e esvoaça então, vindo de fora,

um corvo grande, ave ancestral, dos tempos bíblicos – doutrora!

Sem cortesias, sem parar, batendo as asas triunfais,

ele, com ar de grão-senhor, foi, sobre a porta do meu quarto,

quedar sombrio e nada mais.

Eu estava triste, mas sorri, vendo o meu hóspede noturno

tão gravemente repousado, hirto, solene e taciturno.

“Sem crista, embora” – ponderei – “embora ancião dos teus iguais

não és medroso, ó Corvo hediondo, ó filho errante de Plutão!

Que nobre nome é acaso o teu, no escuro império de Plutão?”

E o corvo disse: “Nunca mais.”

Fiquei surpreso – pois que nunca imaginei fosse possível

ouvir de um corvo tal resposta, embora incerta, incompreensível,

e creio bem, que em tempo algum, em noite alguma entre mortais

viram um pássaro adejar, voando por cima de uma porta,

e declarar (ao alto de um busto, erguido a cima de uma porta)

que se chamava “Nunca mais.”

(...)

A CABEÇA DE CORVO, Alphonsus de Guimaraens

Na mesa, quando em meio à noite lenta,

escrevo antes que o sono me adormeça,

tenho o negro tinteiro que a cabeça

de um corvo representa.

A contemplá-la mudamente fico

e numa dor atroz mais me concentro,

e entreabrindo-lhe o grande e fino bico,

meto-lhe a pena pela goela adentro.

E solitariamente, pouco a pouco,

do bojo tiro a pena rasa sem tinta...

E a minha mão, que treme toda, pinta

versos próprios de um louco.

E o aberto olhar vidrado da funesta

ave que representa o meu tinteiro,

vai-me seguindo a mão correr lesta,

toda a tremer pelo papel inteiro.

Dizem-me todos que atirar eu devo

trevas em fora este agoirento corvo,

pois dele sangra o desespero torvo

destes versos que escrevo.

Poe, ao compor, procedia à consideração de um efeito, tendo em vista sempre a originalidade. Não dispensava-a, pois era-lhe uma constante fonte de interesse evidente. Para tanto, julgava certo e necessário compor mantendo o “vastamente importante elemento artístico – a totalidade ou unidade de efeito”. Para ele, um poema longo, para não perder essa unidade, deveria ser uma sucessão de poemas curtos em relação matemática direta com seu mérito, ou seja, a extensão do poema deve estar na razão direta da sua intensidade.

Esse doseamento se percebe visivelmente em O Corvo, em que há uma gradação de efeito construída de modo a deixar em suspensão o leitor até atingir seu clímax. Na relação do eu-lírico, em A cabeça de Corvo, com a figura do corvo representada pelo tinteiro, com pequenas diferenças, por tratar-se de um poema curto, essa gradação se realiza com o mesmo efeito de suspensão.

Em ambos os poemas, é a atmosfera que domina. Em ambos, uma personagem acha-se sozinha, metida em seus pensamentos, à noite sombria, silenciosa, alta. Acha-se cansada, envolta em mistério, mas concentrada num ato intelectual e até mesmo fantasioso. Uma lê atentamente, a outra escreve, mas as duas sentem-se observadas, tomadas de vagos receios e pressentimentos.

A impressão de pesadelo e delírio que os poetas conseguem meter em suas obras é algo que se difunde ao longo delas. N’O Corvo, a sibilante /s/ se repete como marcação quase que de um resfolgo “mais, umbrais, tais, matinais etc” ao longo do poema, e alcança plenitude no funéreo estribilho “nunca mais”, que mais se assemelha ao um dobre de finados, sugerindo uma ambiência abafada, um ar pesado a imperar naquele espaço. Além de uma seleção lexical que reflete esse ambiente atroz e ameaçador em que se transformaram os locais de “visitação dos corvos” – lúgubre, sepulcrais, fantasmais, pressago, horror, estarrecido, torvo, funesta, louco etc.

Elemento de presença inequívoca na condução das ações dos poemas, o corvo, ave pressaga, majestática, com seu silêncio tiranizante, interrompido somente pelo dorido e ominoso ritornelo “nunca mais”, no de Poe, quer em silêncio, quer crocitando o terrível dobre, determina os atos da estarrecida personagem. De início, a sua aparição, lá fora, como que um viajante noturno a inspirar as mais medonhas conjecturas ao eu-lírico. Depois, já na sala, no diálogo ardente, perplexo e renitente, ansioso para o mistério solver daquele corvo tão espetacularmente torvo, que só lhe dirige o macabro refrão, o fulminado homem, vendo, na hedionda negação da ave, a resposta às suas ânsias pela amada Lenora, chega ao desenlace ao poema, aterrorizado, negando esse mesmo horror.

Semelhantemente, no poema de Alphonsus de Guimaraens, a ave precita, embora servindo de tinteiro, conduz a evolução do ato. Buscando escrever, em meio à noite, acercado de sono, tentando acoroçoar-se no entanto, o eu-poético desses versos se vê assediado por seu corvo, imerso na mesma atmosfera de medonhez que nos deu Poe. Trêmulo, se entrega ao ato criativo e, como que instintivamente, se vê compondo versos próprios de um louco.

A figura da ave inculca-lhe o pavor com seu olhar vidrado e percebe ele que escreve à lôbrega inspiração do aziago corvo, de tal modo que “dele sangra o desespero torvo desses versos que escrevo.”

14 fevereiro 2008

Existir, Viver, Reinventar...



Viver é constantemente reinventar, muitas vezes, "realidades mentirosas"! Está na índole humana assim como a constituição de uma cadeia inorgânica de átomos está nos minerais. Civilização é mais que um termo, mais que uma mera condição de aprimoramento cultural que nos põe acima dos "selvagens", é uma marca de vinculação à vida, ao trabalho vital (não aquele feito pela humilhante necessidade de sustentar a existência material, mas o produtor e performador da vida), e ao que podemos chamar de essência genérica. É esse sentimento de vitalismo nietzscheano que me faz lamentar certos corolários do ascetismo antropológico-cultural de algumas correntes cristãs, tais quais "esta é vida é uma passagem", "o cristão não pertence ao mundo", "teatro é coisa do mundo" etc.

A malversação da palavra mundo e do seu objeto semântico tem redundado em afirmações irresponsáveis que conduzem muitos à alienação e inflam as igrejas de zumbis repetidores de fórmulas de ressentimento que negam a vida. Como cristão, pesa-me sobremodo testemunhar a aberradora realidade desse fato na existência estagnada e estereotipada de muitos que fazem da espada do espírito moto para sua conformação. Entretanto, a reinvenção que referi no princípio é precisamente positiva e abarca o valor semiótico-cultural da relação dialética do homem com os fatos da vida. Procurei em Fernando Pessoa algum pensamento desassossegado para comprovar isso e, entre outros, achei:


"Damos comumente às nossas idéias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes. Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objeto torna-se realmente outro, porque o tornamos outro."

09 fevereiro 2008

Quo Vadis?

Quinta-feira, 31 de janeiro, exatamente às 14,25 horas, o expediente findava na briosa secretaria de saúde de Maceió. Acabara de desligar o computador, enfarado e enervado com o meu trabalho, tendo que tolerar gente arrogante e medíocre que muito se atribui fumos de merecimento, quando, na verdade, merece unicamente um tiro de fuzil AR-15 na cabeça.
Um movimento açodado de funcionários se percebia à porta, minha coordenadora, a quem a princípio sentia-me inclinado a estimar e hoje me causa asco, saía, quando lhe perguntei:

__ Onde está o diário oficial? Necessito saber se prolongarão o feriado!
__ Ah! Não se preocupe, irá até quarta-feira. Próxima quinta voltamos! - respondeu e ainda achou sensato acrescentar - "Bom carnaval!"

Depois que saiu, permaneci algum tempo na sala apreciando uns goles de café e contrariando prescrições médicas quanto à vulnerabilidade do meu estômago. Maldita cafeína, me viciou e até o cheiro de café pelas ruas, quando singro esquinas e praças próximas às parcas cafeterias de Maceió me injeta uma demoníaca ânsia de brindar meu paladar com o precioso sabor desse liquor quintessencial e sentir seus efeitos adrenérgicos no sistema nervoso simpático.
No corredor, depois que libei o última gota e me senti sob a ação dalgum ácido lisérgico, alguém passou rapidamente e me saudou com voz feminina, mal a olhei, mas atentei devidamente ao que me disse - "Onde vai passar o carnaval?"
Todos os anos a mesma pergunta por essa época; todos os anos a mesma vontade de mandar para o inferno quem ma faz. Por que que tenho que passar o carnaval? É ele que tem que passar longe de mim, na verdade! Por que as pessoas não discernem que ser brasileiro não significa partilhar cegamente de todas as tradições da cultura popular desse país? Pois há mais que carnaval e samba, há mais que folia e embriaguez nas ruas!
Eu prefiro a retirada num bosque francês, o mar de brumas sobre as colinas escocesas, o frio dos prados da Suécia, a serra neblinosa de Campos do Jordão com seu inverno eterno lendo Machado de Assis, Graciliano Ramos ou Robert Browning! Utile agradabile unire!!!

28 janeiro 2008

Realidade e Transfiguração na Literatura

A leitura de O Discurso e A Cidade, de Antônio Cândido, me pôs em contato com um romance que o velho mestre classificou como transfigurador da realidade. Aliás, essa é uma das divisões de seu livro que reúne romances tributários de uma postura dita realista por descreverem a realidade, como L'Assommoir, de Émile Zola, e O Cortiço, de Aluísio Azevedo, notavelmente inspirado no precedente; e romances que transcendem o julgamos real, no entanto são capazes de comunicar um profundo sentimento de vida, pois são literariamente eficientes.
Nessa última categoria, Cândido inclui quatro obras: O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, escrito em 1945; o conto A Construção da Muralha da China, de Kafka, escrito a maior parte em 1917 e que consta de fragmentos deixados pelo autor a respeito do tema; O Litoral das Sirtes, publicado em 1951 e escrito por Julien Gracq; e o ótimo poema À Espera dos Bábaros, de Constantino Cavafis, que remonta aos primeiros anos do século XX.
Essas quatro composições compõem, segundo o autor, um único ensaio em quatro capítulos, pois versa sobre textos que encerram uma realidade arbitrária, com peias na fantasia transfiguradora e são sustentados por uma liberdade de criação de situações que, entretanto, dificilmente deixa de transmitir dramas reais, encontráveis na realidade historicamente comprovada. Essas obras se aliam, não apenas pelo caráter imaginário e negador ou corretivo das sociedades existentes, mas também por certas afinidades outras, às criações de Swift, Butler, Wells, Huxley e Orwell. Basta comparar Admirável Mundo, de Huxley, e 1984, de George Orwell.
São textos que nos apresentam um sentimento de vazio e tormento que reina impiedosamente no convívio humano com suas instituições, corroendo e desesperando os grupos e seres da sociedade. O livro de Cândido ainda contém outros ensaios sobre obras que ele categorizou como fora do esquadro, criações que, pertencendo a dada situação histórico-literária, parecem romper com suas propostas em determinados momentos, é o caso de um poema de Mário de Andrade que, em meio à embriagada aventura do verso livre, recorre a um procedimento canônico do versejamento regular.
Meu primeiro e inevitável intento, ao concluir a leitura desses ensaios históricos, foi correr às livrarias e sebos à cata das obras citadas que ainda não se encontram cá, reconfortavelmente postas em minha estante. Da primeira parte, me chamou atenção L'Assommoir, que faz parte do grande projeto de Zola, narrando a trajetória dos Rougon-Macquart, uma série de 20 romances que falam da histoire naturelle et sociale d'une famille sous le Second Empire, obra de fôlego de um dos mais notáveis mestre do naturalismo europeu que descreve clinicamente o comportamento dos traços hereditários de uma família ao longo de cinco gerações. Dessa série, tenho somente Naná, Therese Raquin e Germinal. As livrarias e sebos de Maceió revelam uma marca quase imutável e profundamente aborrecedora a todo ávido leitor que, como eu, não dispensaria encontrar de imediato uma obra tão fantástica como L'Assommoir, essa marca, infelizmente, é escassez de variedade de clássicos europeus, e até brasileiros, desconhecidos da maior parte da população. Prova disso é não encontrar em sebo algum um livro de importância destacada em nossa literatura, A Menina Morta, de Cornélio Penna.
Por sorte e insistência, vislumbrei, apertado entre tomos das editoras Altaya/Record, O Deserto dos Tátaros, de Buzzati. Um respiro de alívio em meio à fuligem de decepção. Mantenho minha busca, contudo, à espera de deparar os outros dois romances da segunda parte do ensaio de Antônio Cândido.