Dou a lume este começo de conto nascido da premência de perlustrar a vida humana nos seus aspectos mais íntimos e pertubadores. Ele, no entanto, é tão introdutório que permite a percepção apenas do ritmo, do ambiente, dos elementos realísticos que formam a teia de uma atmosfera humana tão contemporânea, infimamente tolerável como a da Rua do Comércio, aquele curral verminoso, lugar de concretização nauseante da entropia capitalista, da despersonalização, da fragmentação.
O ruído cavernoso dos ônibus perpassava a Rua do Comércio e se baralhava às loucas vociferações dos anunciantes de produtos. Era maio, mês de tulipas e bocas-de-leão em oferta a poucos metros dali, na Rua do Livramento com bancas fartas em espécimes. Eram dez da manhã, o bafejo da brisa quente mal confortava os transeuntes que atulhavam a outrora Rua Conselheiro Sinimbu.
O bulício se estendia de ponta a ponta e desembocava no calçadão como um afluente que alimenta as águas de um rio caudaloso. Um odioso rito diário de pessoas das mais diversas. Velhos em seu passo lento e quase trôpego, crianças arrastadas por suas mães sobraçando bolsas ou embrulhos, estudantes fardados, funcionários engravatados, apressados, avezados a nada ver à sua frente a não a ser massa borrão desprezível em sua marcha interminável.
Ao longo da rua, estendem-se inúmeras paradas de ônibus que recebem uma turba invariavelmente amorfa. Vêem-se tão-somente pés, braços, pescoços, gorduras como colóides em fissão violenta. Rapidamente, entretanto, tudo se desfaz num movimento fibrilante, tal um saco cheio de vermes expelindo seus humores. É o momento de subir no ônibus, tal arca de Noé a conter espécies que podiam perfeitamente perecer no dilúvio.