22 outubro 2009

A Virtude dos Palavrões

Ariel Arango, psicanalista argentino, cita uma carta do filósofo Voltaire a sua sobrinha, escrita em italiano:

“Beijo-te mil vezes. Minha alma beija a tua, minha pica, meu coração estão apaixonados por ti. Beijo teu belo cu e toda tua pessoa” (ARANGO, 1991, p.11).

Um primeiro contato com esse texto certamente espanta, sobretudo se considerarmos a tradição epistolográfica das grandes literaturas européias caracterizadas pela elevação de estilo. Balzac, Flaubert e o próprio Voltaire, franceses, se incluem nessa tradição. Entretanto, o estilo epistolar do filósofo, na confissão de sua paixão amorosa, não refuga termos que a moda geral nesse campo condena. É de conceito vigente que o erotismo pode insinuar-se numa forma epistolar desde que amenizado por palavras aceitáveis ou toleradas. O que pensar, contudo, quando os sentimentos de um filósofo são externados com uma espontaneidade tão crua e aberta, no emprego das palavras pica e cu (cazzo e culo, no original, respectivamente)? A reação comum seria a surpresa e a insatisfação. Haveria um vago mal-estar diante dessa forma de exprimir o amor e, sobretudo, o amor entre um homem maduro e sua sobrinha!

Mas façamos como o psicanalista argentino, em seu interessante livro sobre as virtudes terapêuticas dos palavrões e substituamos os termos havidos como impudicos por outros de mais aceitação:

“Beijo-te mil vezes. Minha alma beija a tua, meu pênis, meu coração estão apaixonados por ti. Beijo tuas belas nádegas e toda tua pessoa.”

Duas palavras apenas foram trocadas dentro de um total de 25. A essência da mensagem se preservou, mas perdeu vivacidade. A atmosfera erótica se diluiu, a intensidade se esvaeceu. A volúpia inicial, parece-nos, se refugiou no casto temor que procura não ofender, não chocar. A mensagem já não nos alcança com o mesmo viço e sentimento.

Isso posto, cabe-nos refletir: pica e cu, pênis e nádegas são itens lexicais que se referem aos mesmo objetos de nossa anatomia, mas por que o primeiro par é tabuizado e o segundo não? O que há na estrutura de tais palavras que desabona o uso de umas, mas não de outras? Estaria na sua origem, na sua diacronia? Certamente não convém determinar o uso ou não-uso de palavras com base em tais critérios. A língua, como um sistema dinâmico e estruturante, refaz seus caminhos segundo as necessidades e alguns significados primitivos se esfumam no tempo, mudam ou se recuperam em contextos diversos.

São problemas como esses que evocam um conceito fundamental em estudos lingüísticos que focalizam o significado na prática social: a cultura. Esse conceito que fundamenta uma abordagem interpretativa do significado, criticamente suplementada pelas bases da lingüística antropológica, é tanto mais válido quanto mais considerarmos que o homem é um ser totalmente enculturado, pois:

(...) a cultura se faz visível em todos os aspectos da existência, até mesmo nas rotinas mais comezinhas e mínimas da higiene corporal. De fato, ela pode estar nas pequenas rotinas nas quais nós realizamos compreensões corporais de espaço e tempo em que a maioria das sutis operações da cultura possa se manifestar. (FOLEY, 1997, p. 15)

O conceito de significado culturalmente determinado não está restrito às práticas lingüísticas. Por curiosidade, convém citar que Geertz (1973) atenta a uma diferença de muito interesse entre a contração nervosa no simples ato de piscar e o gesto conspiratório que aí se pode conter quando acompanhado de uma expressão secundária. Destarte, uma piscadela de olhos é somente isso e nada mais, porém produzindo-a em conjunto com gestos acessórios pode ser altamente significativa numa conversa em que se está a falar uma coisa e a tencionar outra. Assim, nessa última situação, uma piscadela é um ato culturalmente determinado.

Essas considerações levaram-nos inevitavelmente à conclusão de que os palavrões inserem-se na categoria de estigmatizados pela ação das práticas culturais que condicionam nossa visão de mundo, mas que podem ser vitalizados como recursos de grande fecundidade pela compreensão heuristicamente sólida de suas possibilidades expressivas vistas pelo prisma de uma metodologia capaz de perscrutar os caminhos dos fenômenos lingüísticos no ambiente da cultura de que eles fazem parte.

01 outubro 2009

Fessus et Lassus Sum!

Necessitando tempo para leituras e descanso. A composição do TCC e os estudos para a seleção do Mestrado me têm apoquentado sobremodo.

28 setembro 2009

Paradisus infernalis


Maceió, teus encantos me inebriam, mas tu podias ser mais fria, cinza e sombria. Tuas folhas podiam farfalhar mais tristemente ao sopro do polar. No entanto, tu és quente, muito quente, maldita bela cidade!

02 setembro 2009

Canção do Exílio de Murilo Mendes - Breve Análise

Inúmeras considerações podem ser feitas a respeito do contexto sócio-político-cultural que marcou a realidade brasileira durante as primeiras décadas do século XX e que se refletiu na mentalidade das classes sociais de então. Antes de 1922, havia o predomínio de estruturas tidas como envelhecidas com as quais os epígonos do modernismo romperiam. Era a I República caracterizada pela dominação dos grandes fazendeiros e fundada sobre bases positivista, agnóstica e liberal. O quadro político brasileiro, desde 1894, com chegada ao poder dos barões do café, era fundamentalmente mantido a favor dos interesses do grupo que os presidentes representavam e que os sustentava no poder. Predominava também, no vintênio anterior à semana de Arte Moderna, o complexo cultural do último quartel do século XIX.
Inúmeros outros sucessos no campo político de alta relevância para a história brasileira se fizeram sentir, mas os omitimos em função de economia e por que a minuciação de sua importância histórica não é necessária à compreensão dos fatos tratados neste artigo. Assim, no campo artístico, paralelamente aos acontecimentos referidos, operava-se uma ruptura que teria seu ápice na semana de Arte Moderna.
Um dado importante, nesse processo, em que houve expansão da economia brasileira, sobretudo a agroexportadora e as conseqüências da primeira guerra mundial, foi a presença de imigrantes no país que veio acentuar a cimentação da população estrangeira iniciada com a colonização em 1530. Esse foi um dos fatores externos que contribuíram para a elevação da economia voltada para a produção extensiva e em larga escala: a substituição da mão-de-obra escrava por uma considerável parcela de estrangeiros, que favoreceu o processo de multiculturalização pelo que passou o país. Os principais grupos de imigrantes no Brasil são portugueses, italianos, espanhóis, alemães e japoneses, que representam mais de oitenta por cento do total.
Os portugueses encabeçam as estatísticas oficiais sobre a presença alienígena no Brasil, vindo, em segundo lugar, os italianos cuja concentração se dá, em sua maior parte, no estado de São Paulo.
Uma das metas do projeto estético modernista era a recuperação da identidade múltipla da cultura brasileira. Mas há outro aspecto dessa multiplicidade cultural que é visto de forma bem humorada através do texto objeto deste trabalho, o poema-paródia de Murilo Mendes confeccionado do poema de Gonçalves Dias, Canção do Exílio: a colonização cultural, as idéias que vêm de fora e que se assentam na consciência brasileira apropriando-se de sua índole nativa e, conseqüentemente, desfigurando-a.
O exílio gonçalvino é físico, geográfico e ufanista em relação à terra brasileira diretamente posta em oposição à lusitana e exalta a autenticidade do ente brasileiro através da sua natureza que tem hegemonia sobre a de Portugal. O exílio de Murilo Mendes, entretanto, se realiza aqui mesmo, no terreno cantado por Gonçalves Dias. O que isola o eu-lírico muriliano da brasilidade não é o oceano físico, mas o cultural formado pelo cabedal de influências estrangeiras. Como se trata de uma paródia, definida, aliás, por Bakthin como o recurso em “o autor emprega a fala de um outro (...) mas se introduz naquela outra fala uma intenção que se opõe diretamente à original”, o poema de Murilo pretende denunciar em vez de exalçar o complexo de elementos estranhos que se infiltram na cultura local. É, por assim dizer, um exílio cultural onde facilmente se percebe o incômodo de se sentir cercado por demasiadas presenças não-vernáculas. Por razões sintéticas, publico aqui somente o poema de Murilo Mendes:




Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a
[Gioconda
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de
verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!





MENDES, Murilo. Poemas. In: Poesias (1925 -
1955) . Rio de Janeiro: J. Olympio. 1959. p.5.



Esse mal-estar se verifica na substituição dos elementos que, no poema de Gonçalves Dias, representam a brasilidade da terra, como as palmeiras que dão lugar às macieiras californianas e o sabiá que sucumbe a gaturamos venezianos. Diferentemente de Gonçalves, que mantêm um tom mais lírico e mais apologista, Murilo Mendes incorpora o cotidiano em seus versos num tom ironizante nos versos 5 a 10. Antes, no verso 4, critica o modo de influência simbolista que coloca o poeta em “torre de ametista”, distanciado-o da realidade brasileira, embora, segundo Alfredo Bosi:


"(...) só por volta de 1922, quando as várias tendências do pensamento e da arte européia afetaram a consciência brasileira, é que será compreendida e assimilada a verdadeira revolução espiritual e estética que trazia em seu bojo o Simbolismo."


(Bosi, Alfredo. A literatura brasileira: o pré-modernismo. Vol. V, 2ª edição, editora Cultrix, São Paulo, p. 12)




A referência aos pernilongos é um meio de reforçar o incômodo que a presença forasteira causa e que ela se manifesta até em situações íntimas, como a Gioconda testemunhando uma birra familiar dependurada na parede.

A visível insatisfação com tanta estrangeirice no país é retomada com ênfase nos versos 11 e 12, em que confessa como se sente diante da patente invasão. O poeta não deixa de elogiar sua pátria, fazendo referência à superioridade de nossas flores e frutos, mas intercala um preço, pois custam cem mil réis a dúzia. Como é típica das intenções modernistas a valoração do que é nosso através de uma atitude combativa, dinâmica e agressiva como demonstrou Carlos Drummond de Andrade no periódico A Revista, de 1925:





"Não somos românticos; somos jovens. Um adjetivo vale por outro, dirão. Talvez. Mas, entre todos os romantismos, preferimos o da mocidade e, com ele, o a da ação. Ação intensiva em todos os campos: na literatura, na arte, na política. Somos pela renovação intelectual do Brasil, renovação que se tornou um imperativo categórico."

24 agosto 2009

Dies Sunt

Começo de um conto que veio-me cá como um pensamento buliçoso na minha ânsia de me iniciar definitivamente na literatura. Tenho-me debatido entre dous infinitos - as teorias de Fillmore, de Algirdas Greimas e outros tantos do panteão da Linguística e as concepções ora formalistas, ora sócio-candidianas da criação literária. Minhas experiências nessa área última me têm sido apenas de leitor crítico-invasivo, mas creio que os dias de homo faber litterarum já me são chegados.

Dou a lume este começo de conto nascido da premência de perlustrar a vida humana nos seus aspectos mais íntimos e pertubadores. Ele, no entanto, é tão introdutório que permite a percepção apenas do ritmo, do ambiente, dos elementos realísticos que formam a teia de uma atmosfera humana tão contemporânea, infimamente tolerável como a da Rua do Comércio, aquele curral verminoso, lugar de concretização nauseante da entropia capitalista, da despersonalização, da fragmentação.



O ruído cavernoso dos ônibus perpassava a Rua do Comércio e se baralhava às loucas vociferações dos anunciantes de produtos. Era maio, mês de tulipas e bocas-de-leão em oferta a poucos metros dali, na Rua do Livramento com bancas fartas em espécimes. Eram dez da manhã, o bafejo da brisa quente mal confortava os transeuntes que atulhavam a outrora Rua Conselheiro Sinimbu.

O bulício se estendia de ponta a ponta e desembocava no calçadão como um afluente que alimenta as águas de um rio caudaloso. Um odioso rito diário de pessoas das mais diversas. Velhos em seu passo lento e quase trôpego, crianças arrastadas por suas mães sobraçando bolsas ou embrulhos, estudantes fardados, funcionários engravatados, apressados, avezados a nada ver à sua frente a não a ser massa borrão desprezível em sua marcha interminável.

Ao longo da rua, estendem-se inúmeras paradas de ônibus que recebem uma turba invariavelmente amorfa. Vêem-se tão-somente pés, braços, pescoços, gorduras como colóides em fissão violenta. Rapidamente, entretanto, tudo se desfaz num movimento fibrilante, tal um saco cheio de vermes expelindo seus humores. É o momento de subir no ônibus, tal arca de Noé a conter espécies que podiam perfeitamente perecer no dilúvio.


21 agosto 2009

INTERNATIONALIZATION OF THE WORLD! A VERY GOOD ANSWER !!!

By brazilian senator Cristovam Buarque during a lecture at the New York University in 2000:


“During a recent discussion, in the United States, someone asked my opinion regarding the internationalization of the Amazon Region. The youngster asserted that he expected a response of a humanist and not of a Brazilian.
This was the first time anyone had established the humanist viewpoint as the starting point for my response. In fact, as a Brazilian I would have responded simply against internationalization of the Amazon Region. Even if our governments have not given the attention that this treasure deserves, it is ours. I responded that, as a humanist, realizing the risk of environmental destruction that threatens the Amazon Region, I could imagine its internationalization, just as for everything else that is important to humanity.
If the Amazon Region, from a humanist΄s point of view, has to be internationalized, then we should internationalize the oil reserves of the entire the world as well. Oil is just as important to the well being of humanity as the Amazon Region for our future. Nevertheless, the owners of oil reserves feel it is in their right to increase or decrease oil production and to raise or lower the price. The rich of the world, feel they have the right to burn this valuable possession of humanity. Similarly, the financial capital of the wealthy nations should be internationalized. If the Amazon Region is a natural reserve for every human being, then it could not be burned down by the decision of a landowner or a country. To burn down the Amazon Region is so tragic, as the unemployment provoked by the arbitrary decisions of world wide speculators. We cannot permit that the world΄s financial reserves serve to burn down entire nations according to the whims of speculacion.
Before the (internationalization of the) Amazon Region, I would like to see the internationalization of all the world΄s great museums. The Lourve cannot belong only to France. Each museum in the world is a guardian for the most beautiful works produced by the human genius. It cannot be permitted that these cultural possessions, as the natural posession of the Amazon Region, can be manipulated or be destroyed according to the whims of an owner or a country. Recently, a Japanese millionaire decided to have a painting of a grand master burried with him in the grave. This painting should have been internationalized.
At the time of the meeting, in which this question came up, the United Nations convened the Forum of the Millennium and the presidents of several countries had difficulties in attending due to barriers (they faced) at the border. Therefore, I contend that New York, as the base of the United Nations, should be internationalized. At least Manhattan should belong to all of humanity. Similarly Paris, Venice, Rome, London, Rio de Janeiro, Brazilia, Recife, every city with its own beauty, its own history should belong to the whole world.
If the United States wants to internationalize the Amazon Region, due to the risk of leaving it in Brazilian hands, then we should internationalize all the nuclear stockpiles of the United States. Particularly since they have already shown that they are capable of using these weapons, causing a destruction thousands of times greater than the sad fires taken place in the Brazilian forests.
During their debates, the current U.S. presidential candidates have defended the idea of internationalizing the world forest reserves in exchange for the debt. We could begin to use this debt to guarantee the right of every child in the world to attend school. We could internationalize the children treating all of them, regardless of their birthplace, as a posession which deserves the care and attention of the entire world. Even more so than the Amazon Region. When the world leaders attend to the world΄s poor children as possessions of Humanity, they will no longer permit that these children work when they should be studying, that they die when they should be living.
As a humanist I accept to defend the internationalization of the world. So long as the world treats me as a Brazilian, I will fight so that our Amazon Region will be ours. Only ours.”




Cristovam Buarque is Professor of Brasilia University, ex-governor of Brasilia, D.F. and Brazilian Senator). As reported in the Brazilian Daily O Globo on the 23rd of October, 2000.Translation found: http://1drop.wordpress.com/2008/05/07/internationalization-of-the-world-cristovam-buarque/

22 novembro 2008

CELEBRANDO DIONÍSIO

Em consideração à proposta havida em aula, na Ufal, de dispormos, a turma vespertina do 6º semestre do curso de Letras, da electiva Poesia Erótica, dou a lume aqui uma contribuição minha para esse tema. Poema composto há alguns meses e que retomei para reelaboração e metrificação. Tenham aí o esboço:


Corpora


Fundos os vales do teu púbis,
Selva sombria, imane...
De onde a custo saio,
Tão preso estava em seus liames.

Ao frêmito do gozo estremeço
Enquanto te ouço ranger os dentes...
Tinhorão edaz, esfaimado cróton
É teu sexo sanhoso e ardente!

Assim, tal Bacante em cio profano,
Tu és a dona do abismo
Que me toma ao vórtice
Desse gozo-cataclismo!!!

Todavia, quase sucumbo...mortal demais!
Insano sonhador vencido de marasmo...
Nesse embate de carnes, suor e gemidos
Me dás a inspiração do teu orgasmo.

E, gozando, ainda mais me enredo
No vermelho, foguento sexo fundo
Pelo que, cheio de aljôfares de sêmen,
Me dás a entender o mundo!

12 novembro 2008

ALMA GÉLIDA...


Malgrado a bela imagem acima de minha cidade, meu clima caro é do frio com céu de chumbo num ambiente penumbroso com arquitetura gótica e telas de Bosch, Brugel, Rembrandt. Viver sob o calor impiedoso do nordeste brasileiro é um tormento!

08 outubro 2008

William-Adolphe Bouguereau


As Ninfas e o Sátiro, o belo traço de William-Adolphe Bouguereau, pintor francês, um dos mestres da pintura do século 19, embora não tenha sido tão celebrado em sua época. Seus motivos clássicos, como sátiros, ninfas, cupidos e o realismo fotográfico de suas encantadoras mães com filhos no regaço, além de moçoilas de olhar eternecido fizeram-no do gosto de muitos colecionadores.

Aos interessados, deixo um enlace para o sítio de arte Art Renew que reúne um notável acervo pictórico de mestres antigos e contemporâneos, onde se pode encontrar, evidente, algumas obras da galeria de Bouguereau.



Arte, a vida sem ti é quase nada!

08 setembro 2008

Escritores da Liberdade - Freedom Writers (EUA - 2007)


Qual a função de um professor em sentido amplo? Apenas ministrar aulas como que para infundir conhecimento nos alunos, meros receptáculos? Preencher cadernetas, aplicar provas? E quanto a conhecer os alunos postos sob sua responsabilidade, na sua individualidade, atravessados por conflitos reais de ordem social, étnica, familiar etc e que, certamente, interferem na sua interacção com ambiente escolar?
Escritores da Liberdade é um filme baseado na história real de Erin Gruwell (Hilary Swank), uma professora que assumiu o desafio de ir além das aparências e limitações do sistema que envolve a educação pública. Quis e conseguiu fazer aflorar a dimensão humana da relação entre aluno e mestre, compreendendo suas histórias de vida, dificuldades, dúvidas e incertezas e lidando com os preconceitos de cor, condição social e com a violência sedutora das ruas que forja, nas periferias, uma triste vitrina de auto-afirmação para a juventude norte-americana, a das gangues. Como professora de língua e literatura inglesa, Erin assume uma turma segregada por esses males, indisciplinada e hostil, formada de jovens provindos, em sua maioria, de reformatórios e obrigados a cumprir penas condicionais para não tornar à detenção. Assim, fatalmente, sua freqüência escolar é forçada e a convivência uns com os outros, extremamente difícil, sobretudo devido à segregação racial em quer se encontram. A intolerância e a descrença na integração fomentada pelo receio da histórica opressão branca sobre as demais raças caracteriza inicialmente a relação entre os diversos grupos étnicos -orientais, negros, latinos, brancos - e a professora, cujo empenho não é compreendido,sendo, até mesmo, ridicularizado e havido como uma estratégia branca de dominação. Como agravante de suas frustrações, os demais professores mostram-se poucos dispostos a ajudá-la e a aceitar seus métodos, além do sistema burocrático, absorvedor, estático, minimamente humano e estandardizado demais com regras inflexíveis e improfícuas. Acreditando mais nas potencialidades latentes de seus alunos do que eles mesmos, Erin cria um ciclo de leituras inicialmente baseado em reflexões sobre a vida e as crenças da menina judia Anne Frank, a partir do famoso livro O Diário de Anne Frank em que a jovem relata seus dias de aprisionamento nos campos de concentração nazista. Por ter sido branca e oprimida, Anne Frank constitui exemplo de que não importam raça, cor ou condição social para sofrer preconceitos e exclusão. Assim, sugere aos alunos que, a exemplo da garota judia, escrevam seus próprios diários confessando os anseios, medos e fatos que marcaram suas carreiras juvenis, criando uma ligação com o mundo externo, um meio de comunicação de que não se ressentissem pelo temor de serem incompreendidos. O programa incluía não apenas leitura, mas visitas ao Museu da Tolerância com informaçõessobre o holocausto. Concebe-se, assim, uma forma de reflexão sobre preconceitos, suas raízes e conseqüências de sorte a transformar os jovens, dando-lhes a oportunidade da superação individual e do desenvolvimento da consciência de serem sujeitos sociais. Escritores da Liberdade é uma ode ao poder da educação engajada, levada à realização pelo esforço humanitário e consciente de professores que acreditam na capacidade de superação das potencialidades humanas. Em 1999, os escritos dos alunos da professora Erin forem coligidos e publicados, apesar das dificuldades impostas pela indústria editorial.

Convém considerar a boa trilha sonora do filme com destaque para a canção A Dream dos rappers Common e Wi.lli.am. Para ver o clipe, preme aqui.


02 setembro 2008

Brueghel, Pintor-Anatomista


Tela de Pieter Brueghel, O Velho, assim apodado para distinguir-se de outros membros de sua família, a saber, seus filhos também pintores que, juntos, constituíram uma das mais importantes famílias de artistas flamengos da Europa. Brueghel, O Velho, provavelmente nasceu em Breda, na Holanda e suas obras refletem seu fundo interesse pelo comportamento humano, sobretudo transvisto em situações do cotidiano do homem europeu do século XVI. Seu traço inicial revelava a influência de outro gênio da pintura flamenga, Hyeronimus Bosch. Com o tempo, no entanto, seu estilo ganhou visos próprios. Brueghel tinha apreço pela retratação das loucuras e fraquezas humanas, pela minúcia colhida da vulgaridade do dia-a-dia, os vícios e os comportamentos que se ossificavam na cultura popular.
Retratando com uma precisão anatomística a vida nas periferias e no campo, as obras de Brueghel constituem um dos mais valiosos documentos sobre o modo de vida da sociedade européia dos princípios da Idade Moderna. Junto com seus filhos, Brueghel Moço e Brueghel Veludo, formaram uma dinastia de pintores que se prolongou até o século XVIII.
A tela em exibição é a dos Ditados Populares. Numa aldeia típica do período, o pintor representa, através de gestos e comportamentos, uma série de expressões populares em voga na Europa da época e que chegaram, por tradição, ao nosso século.

29 maio 2008

Autonomia da Arte e Valores Cristãos


Jean-Paul Sartre estabelece em Qu'est la littérature ? a necessidade premente, na vida, da literatura, pois viver exige contato vital com essa força miraculosa chamada arte literária. Para Sartre, não basta apenas escrever, é necessário, a partir da realidade histórica, fazer da obra uma outra realidade que estabeleça um contrato com o leitor a fim de tentar situá-lo no mundo. O filósofo francês concebia literatura como engajamento e disciplina a serviço do homem.

Para Antônio Cândido, obra literária é filha do mundo porque parte de dados documentais, mas como uma produção artística que se rege por regras próprias, constitui outro mundo que faz sentir melhor o primeiro, posto "estar reorganizado pela fatura" Esse é um dos sentidos de se fazer literatura, convocar fatos empíricos e dar-lhes vestes de ficção sem, no entanto, deixar de comunicar um profundo sentimento de vida, e reorganizando-os através de avanços e recuos, fazer sentir melhor a realidade da existência humana. Fazer senti-la melhor, não fazer vê-la como melhor, posto a literatura estar desobrigada do ônus e do desdouro de ser o sorriso da sociedade.

Esse princípio é aplicável a toda forma de arte, não apenas à literatura, como o cinema e o teatro, por exemplo. Ele exclui e condena a risível e suposta influência perniciosa que muitos apedeutas desinformados atribuem a certas categorias artísticas sob a mediação da religião. São recorrentes as atitudes de alienação desses truões que, valendo-se de seu influxo midiático, arrebatam multidões para seu circo de negação e injúria à arte. A incapacidade (ou má vontade) de discernir ficção de realidade objetiva e, nessa diferenciação, de perceber a relação estética na tessitura entre forma e conteúdo, é causa gritante de tantas aberrações que se proliferam nos meios cristãos quanto à relação do homem com certos tipos de arte. Isso se manifesta em termos tais quais:

Quanto aos filmes, é preciso ter o bom senso de assistir apenas aquilo que não traga dano à nossa comunhão com o Senhor. É comum nas telas, o errado tornar-se certo e o certo em errado, por exemplo, inúmeros filmes trazem personagens declaradamente maus, bandidos, assassinos, etc. que arrebatam a aprovação e até mesmo, o desejo de vê-los se dar bem. É o compactuar com as obras das trevas. É licita tal diversão? Jesus ocuparia o seu tempo assistindo filmes abertamente contrários aos princípios de Deus?

(extraído do sítio cristão Vivos!)

Indivíduos como o autor do excerto acima incorrem numa forma insultante de vaidade para qualquer cristão sensível à mais elevada das expressões humanas, a arte. Essa vaidade, parece-nos, lhes permite arrogarem para si o título de psicólogo de Cristo. Para eles, Jesus não tem mais onisciência, pois lhes deve a obrigação da consulta para fazer isso ou aquilo. Desconhecem esses teólogos de araque que a maldade retratada das ações humanas no cinema é apenas aspecto da práxis imediata da vida cotidiana captável por uma forma de conhecimento colocado em nível superior, a estética. Não basta somente entender uma obra pela sua mensagem ou pela sua forma. Convém, necessariamente, compreender que o fazer estético é parte do fazer social e histórico que deu origem à obra de arte, seja ela escrita, pintada numa tela, filmada ou esculpida.

A arte atrai a natureza por um certo meio, a mímese, que é, portanto, um princípio estético-ficcional pelo que não cabem, ao se falar de filmes, romances, pintura, desenhos, gravuras, música, teatro etc recriminações como a da citação acima, pois estas comportam apenas preconceito e falta de metodologia crítica.

Ademais, a literatura brasileira e mesmo a universal, como forma de arte, atraem mimeticamente formas naturais que, vistas pela ótica tacanha de que tudo que não “louva a Deus” é estupendamente demoníaco ou sem proveito para os santos, pareceriam chocantes e anti-bíblicos. Que dizer de Machado de Assis que meteu em suas obras um sabor humorístico fazendo jocosidades de certos valores humanos, ao conceber personagens como Marcela, prostituta interesseira; Capitu, uma esfinge de segredos pontificada como modelo de mocinha que vê no casamento um meio de subir na vida; Brás Cubas, indivíduo ocioso que abusa de sua condição aristocrática? Seria a maior figura de nossas letras indevida para um crente, por que incorpora temas “biblicamente condenados” como cartomancia, adultério, vaidade, assassinato, crueldade etc?

E quanto a Émile Zola, romancista francês, um dos expoentes máximos do naturalismo literário, que, como um anatomista, dissecou a corrompida alma humana quando entregue aos seus instintos? Seria a leitura de Madame Bovary, a história de uma adúltera, ilícita? Aluísio Azevedo que, em O Cortiço, desvelou o atoleiro moral do ser humano apoderado pela cobiça, luxúria e competitividade capitalista, nosso ilustre romancista estaria no índex das proibições bíblicas por que desnuda a realidade por meio da arte?

Em síntese, quando Paulo adverte os coríntios de que todas as coisas são lícitas, mas nem todas convém, ouso dizer que pensou com a racionalidade e o bom senso que sugiro adotar com o presente arrazoado, pois a arte nada deve à realidade.

24 abril 2008

Minha Pátria é minha Língua


Tenho acompanhado os tópicos de uma comunidade sobre o português falado no nordeste, e me sinto na obrigação de reagir contra a orgia odiosa de insultos e asneirices vomitada por uma criatura que, como certo se vê, nada entende de lingüística e de história, ao se dar à audácia de valorar uma variante lingüística em detrimento de outra e uma região geográfica em desprezo de outra.

Mesmo havendo, no curso da história, uma crescente afirmação do combate às variadas formas de preconceito, a mostrar que elas nada têm de verdade, nada de fundamentado cientificamente, mas são meros frutos bichados da ignorância crassa, da intolerância estúpida ou da manipulação ideológica, deparamos a fatalidade de encontrar pessoas como a autora dos comentários preconceituosos contra o nordeste que, parece-nos, não se cabe na sua total falta de respeito humano, na sua desmedida obtusão intelectual e se sente na necessidade de vomitar suas imundícias pelo simples prazer do agravo.

Pessoas assim são, infelizmente, uma incontornável desgraça na vida dos que aprendem, evoluem e se agigantam por cultivar o respeito e o bom senso e vêem esses hereges preconceituosos ficar cada vez mais para trás, cada vez mais rígidos e encarquilhados naquela forma de preconceito que é, de todas, as mais lamentável: a de livre escolha por uma inteiriça falta de orientação na vida.

Só no plano lingüístico, a opinião chacoteira da garota choca por revelar o quanto ela está atordoada pelas travancas da ignorância. Dizer que um sotaque é feio é, no mínimo, uma confissão vergonhosa de desinformação. É uma atitude que revela absoluta falta de conhecimento dos sutis mecanismos de uma língua que é um sistema com tendência à variação, ocorrendo em todos os níveis. Segundo Edward Sapir, “é justamente porque a língua é um tipo de comportamento, assim como tudo numa cultura, e também porque ela revela, em suas linhas gerais, regularidades que só o cientista tem o hábito de formular, que a lingüística é de estratégica importância para a ciência social. Por trás de uma aparente ausência de regras do fenômeno social, existe uma regularidade na sua configuração que é tão real quanto aquela dos processos físicos do mundo...”

Só para dar um exemplo de variação fonética, nível lingüístico em que os nordestinos estão sendo tripudiados, posso citar uma variável presente no inglês americano: o ditongo de termos como “bride” e “alive”, por exemplo, não é pronunciado de acordo com a norma padrão nos estados do sul, sobretudo no Mississipi e Alabama. A pronúncia mais comum, nesses estados, é um /a/ alongado, representado /a:/, segundo Woods (2001). Dizer a um norte-americano do sul que seu sotaque é feio ou errado é chocá-lo pela ausência de um saber elementar de que as línguas variam.

E, para exemplificação mais nossa, pode-se citar o que ocorre nas regiões banhadas pelo Tietê, onde há troca do “l” pelo “r”, fenômeno conhecido como rotacismo, assim: arto por alto, iguar por igual etc, por influência da língua dos indígenas, que não conheciam o fonema “l”, mas apenas o som de “r” e diziam “surará” como corruptela de “soldado”. Há, enfim, uma constelação de fatos que, por seu valor empírico, á h`H,lll sssssss

tem bastante poder impugnatório para fuzilar a arrogância descabida de uma molecota ainda de cueiros que desconhece o próprio país. Ela nada mais é que isso: uma criança em atraso mental masturbando suas pretensões a adulto. Suas ofensas contra o nordeste são apenas o produto de um onanismo cerebral inútil, de uma petulância banal e elitista violentamente incomodada.

10 abril 2008

Confraria Ufalina


Meus confrades da faculdade num dia de regozijo.

05 abril 2008

Flânerie


Hoje pela manhã, acordei de um modo raro: confortável. Senti prazer nas formas do meu quarto, sempre em desalinho após a aurora, resultante, umas vezes, do embate de corpos da noite anterior; outras, do torvelinho de um sono agitado e desprazeroso. Mas o canto da patativa que se aninhou em meu telhado realmente ressumou n'alma algo de gozoso. O calor do Hades que não raramente acompanha as manhãs de outono neste cáustico nordeste hoje não me perturbou. Os sons da gente ímpia da ruas em seu imutável caminhar de alto a baixo sob minha varanda chegou a causar-me o habitual taedium uitae, mas suportei-o bem.
Assim, saí às ruas, tal flâneur dos trópicos, com a imagem do flâneur francês no espírito. E, num recitar de seus versos, ocorreram-me outros, de Cesário Verde. Um belo poema que descreve um movimento de passeio através das ruas, incorporando cada fato, ato, gesto, como se o poeta sobrevoasse a cidade e captasse sua agitação, seu bulício tal como se estivesse munido de uma câmera de lente de alta sensibilidade. Chama-se Ave-Marias.


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,

Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia

Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.


O céu parece baixo e de neblina,

O gás extravasado enjoa-me, perturba;

E os edifícios, com as chaminés, e a turba,

Toldam-se duma cor monótona e londrina.


Batem os carros de aluguer, ao fundo,

Levando à via férrea os que se vão. Felizes!

Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!


Semelham-se a gaiolas, com viveiros,

As edificações somente emadeiradas:

Como morcegos, ao cair das badaladas,

Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.


Voltam os calafates, aos magotes,

De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;

Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,

Ou erro pelos cais a que se atracam botes.


E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!

Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jamais!


E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

De um couraçado inglês vogam os escaleres;

E em terra num tinir de louças e talheres

Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.


Num trem de praça arengam dois dentistas;

Um trôpego arlequim braceja numas andas;

Os querubins do lar flutuam nas varandas;

Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!


Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.


Vêm sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

E alguns, à cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas.


Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;

E apinham-se num bairro aonde miam gatas,

E o peixe podre
gera os focos de infecção!