24 abril 2008

Minha Pátria é minha Língua


Tenho acompanhado os tópicos de uma comunidade sobre o português falado no nordeste, e me sinto na obrigação de reagir contra a orgia odiosa de insultos e asneirices vomitada por uma criatura que, como certo se vê, nada entende de lingüística e de história, ao se dar à audácia de valorar uma variante lingüística em detrimento de outra e uma região geográfica em desprezo de outra.

Mesmo havendo, no curso da história, uma crescente afirmação do combate às variadas formas de preconceito, a mostrar que elas nada têm de verdade, nada de fundamentado cientificamente, mas são meros frutos bichados da ignorância crassa, da intolerância estúpida ou da manipulação ideológica, deparamos a fatalidade de encontrar pessoas como a autora dos comentários preconceituosos contra o nordeste que, parece-nos, não se cabe na sua total falta de respeito humano, na sua desmedida obtusão intelectual e se sente na necessidade de vomitar suas imundícias pelo simples prazer do agravo.

Pessoas assim são, infelizmente, uma incontornável desgraça na vida dos que aprendem, evoluem e se agigantam por cultivar o respeito e o bom senso e vêem esses hereges preconceituosos ficar cada vez mais para trás, cada vez mais rígidos e encarquilhados naquela forma de preconceito que é, de todas, as mais lamentável: a de livre escolha por uma inteiriça falta de orientação na vida.

Só no plano lingüístico, a opinião chacoteira da garota choca por revelar o quanto ela está atordoada pelas travancas da ignorância. Dizer que um sotaque é feio é, no mínimo, uma confissão vergonhosa de desinformação. É uma atitude que revela absoluta falta de conhecimento dos sutis mecanismos de uma língua que é um sistema com tendência à variação, ocorrendo em todos os níveis. Segundo Edward Sapir, “é justamente porque a língua é um tipo de comportamento, assim como tudo numa cultura, e também porque ela revela, em suas linhas gerais, regularidades que só o cientista tem o hábito de formular, que a lingüística é de estratégica importância para a ciência social. Por trás de uma aparente ausência de regras do fenômeno social, existe uma regularidade na sua configuração que é tão real quanto aquela dos processos físicos do mundo...”

Só para dar um exemplo de variação fonética, nível lingüístico em que os nordestinos estão sendo tripudiados, posso citar uma variável presente no inglês americano: o ditongo de termos como “bride” e “alive”, por exemplo, não é pronunciado de acordo com a norma padrão nos estados do sul, sobretudo no Mississipi e Alabama. A pronúncia mais comum, nesses estados, é um /a/ alongado, representado /a:/, segundo Woods (2001). Dizer a um norte-americano do sul que seu sotaque é feio ou errado é chocá-lo pela ausência de um saber elementar de que as línguas variam.

E, para exemplificação mais nossa, pode-se citar o que ocorre nas regiões banhadas pelo Tietê, onde há troca do “l” pelo “r”, fenômeno conhecido como rotacismo, assim: arto por alto, iguar por igual etc, por influência da língua dos indígenas, que não conheciam o fonema “l”, mas apenas o som de “r” e diziam “surará” como corruptela de “soldado”. Há, enfim, uma constelação de fatos que, por seu valor empírico, á h`H,lll sssssss

tem bastante poder impugnatório para fuzilar a arrogância descabida de uma molecota ainda de cueiros que desconhece o próprio país. Ela nada mais é que isso: uma criança em atraso mental masturbando suas pretensões a adulto. Suas ofensas contra o nordeste são apenas o produto de um onanismo cerebral inútil, de uma petulância banal e elitista violentamente incomodada.

10 abril 2008

Confraria Ufalina


Meus confrades da faculdade num dia de regozijo.

05 abril 2008

Flânerie


Hoje pela manhã, acordei de um modo raro: confortável. Senti prazer nas formas do meu quarto, sempre em desalinho após a aurora, resultante, umas vezes, do embate de corpos da noite anterior; outras, do torvelinho de um sono agitado e desprazeroso. Mas o canto da patativa que se aninhou em meu telhado realmente ressumou n'alma algo de gozoso. O calor do Hades que não raramente acompanha as manhãs de outono neste cáustico nordeste hoje não me perturbou. Os sons da gente ímpia da ruas em seu imutável caminhar de alto a baixo sob minha varanda chegou a causar-me o habitual taedium uitae, mas suportei-o bem.
Assim, saí às ruas, tal flâneur dos trópicos, com a imagem do flâneur francês no espírito. E, num recitar de seus versos, ocorreram-me outros, de Cesário Verde. Um belo poema que descreve um movimento de passeio através das ruas, incorporando cada fato, ato, gesto, como se o poeta sobrevoasse a cidade e captasse sua agitação, seu bulício tal como se estivesse munido de uma câmera de lente de alta sensibilidade. Chama-se Ave-Marias.


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,

Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia

Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.


O céu parece baixo e de neblina,

O gás extravasado enjoa-me, perturba;

E os edifícios, com as chaminés, e a turba,

Toldam-se duma cor monótona e londrina.


Batem os carros de aluguer, ao fundo,

Levando à via férrea os que se vão. Felizes!

Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!


Semelham-se a gaiolas, com viveiros,

As edificações somente emadeiradas:

Como morcegos, ao cair das badaladas,

Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.


Voltam os calafates, aos magotes,

De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;

Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,

Ou erro pelos cais a que se atracam botes.


E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!

Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jamais!


E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

De um couraçado inglês vogam os escaleres;

E em terra num tinir de louças e talheres

Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.


Num trem de praça arengam dois dentistas;

Um trôpego arlequim braceja numas andas;

Os querubins do lar flutuam nas varandas;

Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!


Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.


Vêm sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

E alguns, à cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas.


Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;

E apinham-se num bairro aonde miam gatas,

E o peixe podre
gera os focos de infecção!

24 fevereiro 2008

A Menina Morta - Cornélio Penna


“Com esforço, ao fim de várias tentativas(...) o carro pode entrar na balsa. Dentro em pouco a enorme barcaça, ainda maior só com aquele veículo negro deslizava pelas águas sussurrantes, que pareciam rir e conversar em surdina. Talvez as ondas rápidas, amarelas, contassem umas às outras a história muito curta e risonha da menina vestida de cetim brocado, com a pequena coroa de rosas que era prisioneira entre paredes de madeira rude, escondida pela seda branca, sobre ela esticada.”





O trecho acima faz parte do romance A Menina Morta, de Cornélio Penna, um romancista lamentavelmente desconhecido da maioria dos brasileiros e que escreveu uma das maiores obras da ficção intimista de nossas letras. A Menina Morta é um romance profundo, de atmosfera, conforme classificou Alfredo Bosi em sua História Concisa da Literatura Brasileira.
Produzindo nos primeiros anos do século 20, Cornélio Penna, nascido em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1896, escreveu um dos mais envolventes textos em prosa cujos leitores, segundo Luís Costa Lima, contam-se nos dedos. Um texto que supera a subjetividade e que vai além da tradição da época, pois, quando surgiu, os seus contemporâneos eram tributários da prosa regionalista que então imperava. Vejam-se Graciliano Ramos, Raquel de Queiróz, Jorge Amado, Érico Veríssimo, por exemplo.

19 fevereiro 2008

O Corvo (Edgar Allan Poe) e A Cabeça de Corvo (Alphonsus de Guimaraens)



Os versos de Alphonsus de Guimaraens que formam o poema “A Cabeça de Corvo”, pela atmosfera sombria, noturna, arrastada que a obra infunde, mesmo numa leitura rápida, para um leitor atento e familiarizado com composições que fazem aflorar sensações angustiantes e perturbadoras, facilmente sugerem um paralelo com uma das obras mais admiráveis da literatura ocidental: O Corvo, de Edgar Allan Poe, poeta, contista e ensaísta norte-americano de vida atribulada que não raramente fazia refletir em suas obras.

É esse paralelo, que salta-nos à vista, o objeto deste artigo. O Corvo tornou-se mundialmente conhecido e inscreveu seu autor, citando Oscar Mendes, no panteão dos poetas imortais. Tais foram a arte e o labor que envolveu a composição do poema que, segundo provas, levou Poe a consumir anos de reflexão cujo processo lógico, cuidadoso, apurado, ele não dispensou de comentar em seu também famoso escrito Filosofia da Composição em que explicita, passo a passo, as minúcias do seu trabalho produtivo.

Como um dado curioso, vale dizer que Poe repelia a idéia de inspiração mágica que certos autores, especialmente poetas, assumiam para atestar o meio pelo qual compunham. Diz ele:

Muitas vezes pensei quão interessantemente podia ser escrita uma revista por um autor que quisesse – isto é, que pudesse – pormenorizar, passo a passo, os processos pelos quais qualquer uma de suas composições atingia seu ponto de acabamento. Por que uma publicação assim nunca foi dada ao mundo é coisa que não sei explicar, mas talvez a vaidade dos autores tenha mais responsabilidade por essa omissão do que qualquer outra causa.

(POE, Edgar Allan. Obras Completas, 1998)

Das inúmeras traduções em língua portuguesa de O Corvo, preferi a de Gondin da Fonseca, por estar metricamente mais próxima do original inglês, e, como não convém, neste desambicioso trabalho, uma abordagem demasiado aprofundada do poema de Poe, houve por bem apenas transcrever parte dele, suficiente para se perceber seu eco no poema de Alphonsus de Guimaraens.

O CORVO, Edgar Allan Poe

Certa vez, quando à meia-noite eu lia, fraco, extenuado,

um livro antigo e singular, sobre doutrinas do passado,

meio dormindo – cabeceando – ouvi uns sons, trêmulos, tais

como se leve, bem de leve, alguém batesse à minha porta.

“É um visitante”, murmurei, “que bate, leve, à minha porta.

Apenas isso e anda mais.”

Bem me recordo. Era em dezembro. Um frio atroz, ventos cortantes...

Morria a chama no fogão, pondo no chão sombra errantes.

Eu nos meus livros procurava – ansiando as horas matinais –

um meio (em vão) de amortecer fundas saudades de Lenora

- bela adorada, a quem, no céu os querubins chamam Lenora,

e aqui ninguém chamará mais.

E das cortinas cor de sangue, o arfar soturno e brando e vago

causou-me horror nunca sentido – horror fantástico e pressago.

Então, fiquei (para acalmar o coração de sustos tais)

a repetir: “É alguém que bate, alguém que bate à minha porta;

algum noturno visitante, aqui batendo à minha porta;

é isso, é isso e nada mais.”

Fortalecido já por fim, brado perdendo a hesitação:

“Senhor! Senhora! quem sejais, se demorei, peço perdão!

Eu dormitava, fatigado, e tão baixinho me chamais,

bateis tão manso, mansamente, assim de noite à minha porta,

que não é fácil escutar.” Porém só vejo, abrindo a porta,

escuridão e nada mais.

Perquiro a treva longamente, estarrecido, amedrontado,

sonhando sonhos que, talvez, nenhum mortal haja sonhado.

Silêncio fúnebre! Ninguém. De visitante nem sinais.

Uma palavra apenas corta a noite plácida – “Lenora.”

Digo-a em segredo, e num murmúrio, o eco repete-me Lenora.

Isso somente - e nada mais.

Para o meu quarto eu volto enfim – sentindo n’alma estranho ardor,

e novamente ouço bater, ouço bater com mais vigor,

“Vêm da janela”, presumi, “estes rumores anormais,

Mas eu depressa vou saber donde procede tal mistério.

É o vento, o vento e nada mais!”

Eis, de repente, abro a janela, e esvoaça então, vindo de fora,

um corvo grande, ave ancestral, dos tempos bíblicos – doutrora!

Sem cortesias, sem parar, batendo as asas triunfais,

ele, com ar de grão-senhor, foi, sobre a porta do meu quarto,

quedar sombrio e nada mais.

Eu estava triste, mas sorri, vendo o meu hóspede noturno

tão gravemente repousado, hirto, solene e taciturno.

“Sem crista, embora” – ponderei – “embora ancião dos teus iguais

não és medroso, ó Corvo hediondo, ó filho errante de Plutão!

Que nobre nome é acaso o teu, no escuro império de Plutão?”

E o corvo disse: “Nunca mais.”

Fiquei surpreso – pois que nunca imaginei fosse possível

ouvir de um corvo tal resposta, embora incerta, incompreensível,

e creio bem, que em tempo algum, em noite alguma entre mortais

viram um pássaro adejar, voando por cima de uma porta,

e declarar (ao alto de um busto, erguido a cima de uma porta)

que se chamava “Nunca mais.”

(...)

A CABEÇA DE CORVO, Alphonsus de Guimaraens

Na mesa, quando em meio à noite lenta,

escrevo antes que o sono me adormeça,

tenho o negro tinteiro que a cabeça

de um corvo representa.

A contemplá-la mudamente fico

e numa dor atroz mais me concentro,

e entreabrindo-lhe o grande e fino bico,

meto-lhe a pena pela goela adentro.

E solitariamente, pouco a pouco,

do bojo tiro a pena rasa sem tinta...

E a minha mão, que treme toda, pinta

versos próprios de um louco.

E o aberto olhar vidrado da funesta

ave que representa o meu tinteiro,

vai-me seguindo a mão correr lesta,

toda a tremer pelo papel inteiro.

Dizem-me todos que atirar eu devo

trevas em fora este agoirento corvo,

pois dele sangra o desespero torvo

destes versos que escrevo.

Poe, ao compor, procedia à consideração de um efeito, tendo em vista sempre a originalidade. Não dispensava-a, pois era-lhe uma constante fonte de interesse evidente. Para tanto, julgava certo e necessário compor mantendo o “vastamente importante elemento artístico – a totalidade ou unidade de efeito”. Para ele, um poema longo, para não perder essa unidade, deveria ser uma sucessão de poemas curtos em relação matemática direta com seu mérito, ou seja, a extensão do poema deve estar na razão direta da sua intensidade.

Esse doseamento se percebe visivelmente em O Corvo, em que há uma gradação de efeito construída de modo a deixar em suspensão o leitor até atingir seu clímax. Na relação do eu-lírico, em A cabeça de Corvo, com a figura do corvo representada pelo tinteiro, com pequenas diferenças, por tratar-se de um poema curto, essa gradação se realiza com o mesmo efeito de suspensão.

Em ambos os poemas, é a atmosfera que domina. Em ambos, uma personagem acha-se sozinha, metida em seus pensamentos, à noite sombria, silenciosa, alta. Acha-se cansada, envolta em mistério, mas concentrada num ato intelectual e até mesmo fantasioso. Uma lê atentamente, a outra escreve, mas as duas sentem-se observadas, tomadas de vagos receios e pressentimentos.

A impressão de pesadelo e delírio que os poetas conseguem meter em suas obras é algo que se difunde ao longo delas. N’O Corvo, a sibilante /s/ se repete como marcação quase que de um resfolgo “mais, umbrais, tais, matinais etc” ao longo do poema, e alcança plenitude no funéreo estribilho “nunca mais”, que mais se assemelha ao um dobre de finados, sugerindo uma ambiência abafada, um ar pesado a imperar naquele espaço. Além de uma seleção lexical que reflete esse ambiente atroz e ameaçador em que se transformaram os locais de “visitação dos corvos” – lúgubre, sepulcrais, fantasmais, pressago, horror, estarrecido, torvo, funesta, louco etc.

Elemento de presença inequívoca na condução das ações dos poemas, o corvo, ave pressaga, majestática, com seu silêncio tiranizante, interrompido somente pelo dorido e ominoso ritornelo “nunca mais”, no de Poe, quer em silêncio, quer crocitando o terrível dobre, determina os atos da estarrecida personagem. De início, a sua aparição, lá fora, como que um viajante noturno a inspirar as mais medonhas conjecturas ao eu-lírico. Depois, já na sala, no diálogo ardente, perplexo e renitente, ansioso para o mistério solver daquele corvo tão espetacularmente torvo, que só lhe dirige o macabro refrão, o fulminado homem, vendo, na hedionda negação da ave, a resposta às suas ânsias pela amada Lenora, chega ao desenlace ao poema, aterrorizado, negando esse mesmo horror.

Semelhantemente, no poema de Alphonsus de Guimaraens, a ave precita, embora servindo de tinteiro, conduz a evolução do ato. Buscando escrever, em meio à noite, acercado de sono, tentando acoroçoar-se no entanto, o eu-poético desses versos se vê assediado por seu corvo, imerso na mesma atmosfera de medonhez que nos deu Poe. Trêmulo, se entrega ao ato criativo e, como que instintivamente, se vê compondo versos próprios de um louco.

A figura da ave inculca-lhe o pavor com seu olhar vidrado e percebe ele que escreve à lôbrega inspiração do aziago corvo, de tal modo que “dele sangra o desespero torvo desses versos que escrevo.”

14 fevereiro 2008

Existir, Viver, Reinventar...



Viver é constantemente reinventar, muitas vezes, "realidades mentirosas"! Está na índole humana assim como a constituição de uma cadeia inorgânica de átomos está nos minerais. Civilização é mais que um termo, mais que uma mera condição de aprimoramento cultural que nos põe acima dos "selvagens", é uma marca de vinculação à vida, ao trabalho vital (não aquele feito pela humilhante necessidade de sustentar a existência material, mas o produtor e performador da vida), e ao que podemos chamar de essência genérica. É esse sentimento de vitalismo nietzscheano que me faz lamentar certos corolários do ascetismo antropológico-cultural de algumas correntes cristãs, tais quais "esta é vida é uma passagem", "o cristão não pertence ao mundo", "teatro é coisa do mundo" etc.

A malversação da palavra mundo e do seu objeto semântico tem redundado em afirmações irresponsáveis que conduzem muitos à alienação e inflam as igrejas de zumbis repetidores de fórmulas de ressentimento que negam a vida. Como cristão, pesa-me sobremodo testemunhar a aberradora realidade desse fato na existência estagnada e estereotipada de muitos que fazem da espada do espírito moto para sua conformação. Entretanto, a reinvenção que referi no princípio é precisamente positiva e abarca o valor semiótico-cultural da relação dialética do homem com os fatos da vida. Procurei em Fernando Pessoa algum pensamento desassossegado para comprovar isso e, entre outros, achei:


"Damos comumente às nossas idéias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes. Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objeto torna-se realmente outro, porque o tornamos outro."

09 fevereiro 2008

Quo Vadis?

Quinta-feira, 31 de janeiro, exatamente às 14,25 horas, o expediente findava na briosa secretaria de saúde de Maceió. Acabara de desligar o computador, enfarado e enervado com o meu trabalho, tendo que tolerar gente arrogante e medíocre que muito se atribui fumos de merecimento, quando, na verdade, merece unicamente um tiro de fuzil AR-15 na cabeça.
Um movimento açodado de funcionários se percebia à porta, minha coordenadora, a quem a princípio sentia-me inclinado a estimar e hoje me causa asco, saía, quando lhe perguntei:

__ Onde está o diário oficial? Necessito saber se prolongarão o feriado!
__ Ah! Não se preocupe, irá até quarta-feira. Próxima quinta voltamos! - respondeu e ainda achou sensato acrescentar - "Bom carnaval!"

Depois que saiu, permaneci algum tempo na sala apreciando uns goles de café e contrariando prescrições médicas quanto à vulnerabilidade do meu estômago. Maldita cafeína, me viciou e até o cheiro de café pelas ruas, quando singro esquinas e praças próximas às parcas cafeterias de Maceió me injeta uma demoníaca ânsia de brindar meu paladar com o precioso sabor desse liquor quintessencial e sentir seus efeitos adrenérgicos no sistema nervoso simpático.
No corredor, depois que libei o última gota e me senti sob a ação dalgum ácido lisérgico, alguém passou rapidamente e me saudou com voz feminina, mal a olhei, mas atentei devidamente ao que me disse - "Onde vai passar o carnaval?"
Todos os anos a mesma pergunta por essa época; todos os anos a mesma vontade de mandar para o inferno quem ma faz. Por que que tenho que passar o carnaval? É ele que tem que passar longe de mim, na verdade! Por que as pessoas não discernem que ser brasileiro não significa partilhar cegamente de todas as tradições da cultura popular desse país? Pois há mais que carnaval e samba, há mais que folia e embriaguez nas ruas!
Eu prefiro a retirada num bosque francês, o mar de brumas sobre as colinas escocesas, o frio dos prados da Suécia, a serra neblinosa de Campos do Jordão com seu inverno eterno lendo Machado de Assis, Graciliano Ramos ou Robert Browning! Utile agradabile unire!!!

28 janeiro 2008

Realidade e Transfiguração na Literatura

A leitura de O Discurso e A Cidade, de Antônio Cândido, me pôs em contato com um romance que o velho mestre classificou como transfigurador da realidade. Aliás, essa é uma das divisões de seu livro que reúne romances tributários de uma postura dita realista por descreverem a realidade, como L'Assommoir, de Émile Zola, e O Cortiço, de Aluísio Azevedo, notavelmente inspirado no precedente; e romances que transcendem o julgamos real, no entanto são capazes de comunicar um profundo sentimento de vida, pois são literariamente eficientes.
Nessa última categoria, Cândido inclui quatro obras: O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, escrito em 1945; o conto A Construção da Muralha da China, de Kafka, escrito a maior parte em 1917 e que consta de fragmentos deixados pelo autor a respeito do tema; O Litoral das Sirtes, publicado em 1951 e escrito por Julien Gracq; e o ótimo poema À Espera dos Bábaros, de Constantino Cavafis, que remonta aos primeiros anos do século XX.
Essas quatro composições compõem, segundo o autor, um único ensaio em quatro capítulos, pois versa sobre textos que encerram uma realidade arbitrária, com peias na fantasia transfiguradora e são sustentados por uma liberdade de criação de situações que, entretanto, dificilmente deixa de transmitir dramas reais, encontráveis na realidade historicamente comprovada. Essas obras se aliam, não apenas pelo caráter imaginário e negador ou corretivo das sociedades existentes, mas também por certas afinidades outras, às criações de Swift, Butler, Wells, Huxley e Orwell. Basta comparar Admirável Mundo, de Huxley, e 1984, de George Orwell.
São textos que nos apresentam um sentimento de vazio e tormento que reina impiedosamente no convívio humano com suas instituições, corroendo e desesperando os grupos e seres da sociedade. O livro de Cândido ainda contém outros ensaios sobre obras que ele categorizou como fora do esquadro, criações que, pertencendo a dada situação histórico-literária, parecem romper com suas propostas em determinados momentos, é o caso de um poema de Mário de Andrade que, em meio à embriagada aventura do verso livre, recorre a um procedimento canônico do versejamento regular.
Meu primeiro e inevitável intento, ao concluir a leitura desses ensaios históricos, foi correr às livrarias e sebos à cata das obras citadas que ainda não se encontram cá, reconfortavelmente postas em minha estante. Da primeira parte, me chamou atenção L'Assommoir, que faz parte do grande projeto de Zola, narrando a trajetória dos Rougon-Macquart, uma série de 20 romances que falam da histoire naturelle et sociale d'une famille sous le Second Empire, obra de fôlego de um dos mais notáveis mestre do naturalismo europeu que descreve clinicamente o comportamento dos traços hereditários de uma família ao longo de cinco gerações. Dessa série, tenho somente Naná, Therese Raquin e Germinal. As livrarias e sebos de Maceió revelam uma marca quase imutável e profundamente aborrecedora a todo ávido leitor que, como eu, não dispensaria encontrar de imediato uma obra tão fantástica como L'Assommoir, essa marca, infelizmente, é escassez de variedade de clássicos europeus, e até brasileiros, desconhecidos da maior parte da população. Prova disso é não encontrar em sebo algum um livro de importância destacada em nossa literatura, A Menina Morta, de Cornélio Penna.
Por sorte e insistência, vislumbrei, apertado entre tomos das editoras Altaya/Record, O Deserto dos Tátaros, de Buzzati. Um respiro de alívio em meio à fuligem de decepção. Mantenho minha busca, contudo, à espera de deparar os outros dois romances da segunda parte do ensaio de Antônio Cândido.

20 dezembro 2007

Os Pombos - Coelho Neto

Em prosseguimento às análises dos contos que nos tem sugerido nossa cara professora Gilda, decidi postar alguns comentários que fiz à pressa do conto de Coelho Neto, Os Pombos. Texto bastante envolvente que contém a marca característica do autor e que o fez indigesto para muitos modernistas.
"Os Pombos" trata do drama de um casal de lavradores Tibúrcio e Joana e de seu filho Luís que contrai grave enfermidade, ficando à morte. O pai do garoto é um diligente agricultor que cuida diletamente de um pombal, pois crê, segundo crença de regiões interioranas, que o movimento agitado dos pombos traz desgraça. O estado definhante da saúde do filho está intimamente ligado, segundo suas crendices, à condição dos pombos. Cada movimento das aves em debandada conduz o pensamento e as emoções de Tibúrcio.
Assim, à medida que as aves se vão embora, pressentindo a morte que deve vir perto, o lavrador vai ficando mais apreensivo e psicologicamente agitado. Após uma tentativa de ocupar-se na roça, enxada ao ombro e caminhada por uma longa verdura calma, movimentada pelo vento da tarde, Tibúrcio não consegue ater-se ao trabalho, o pensamento constante no filho e na esposa o acossa e acaba por levá-lo de volta a casa, já antevendo o pior:

De repente um pombo atravessou os ares, outro, outro, outro logo depois. Tibúrcio pôs-se de pé olhando - lá iam eles, lá iam! Asas estalaram - eram outros. Aqueles não tornariam mais! Fugiam espavoridos, sentindo a morte que devia vir perto.

No terreiro de sua cabana, fita o pombal deserto, alargando a vista em busca de algum sinal de retorno das aves. Ao lado da mulher, que o descobre lá contemplativo, ainda tenciona chamar uma rezadeira após notificação de Joana em reposta à sua curiosidade de que se haveria cura para isso, a fuga dos pombos. Alguns momentos e Joana torna a casa e de lá rompe um grito de desespero, era a tragédia anunciada. Tibúrcio entra no quarto de onde parte o estridor e vê o filho morto e mãe ao lado desfeita em pranto.
Fora, quando percebe o retorno dos pombos, desespera-se na sua revolta e derriba a machadadas o pombal, matando em seguida, entre as mãos convulsas, dois borrachos que recolhe do chão, indefesos e desfigurados.
O conto é perpassado pela agonia e apreensão do casal e centra-se no tema da superstição segundo a qual a migração dos pombos é prenúncio de morte. A espera dorida pelo retorno das aves é interrompida pela falecimento de Luís, em razão do qual Tibúrcio extravasa sua dor, quando destrói o pombal. Assim, a esperança de o filho curar-se fica-lhe condicionada à permanência dos pombos.

06 dezembro 2007

Um Poeta Lírico - do volume Prosas Bárbaras



Mais conhecido por seus romances, Eça de Queirós revela outros aspectos de sua prosa em duas outras modalidades literárias: a prosa jornalística e o conto. Neste último, ele permite-se emancipar-se dos rigores do romance realista, como no conto Um Poeta Lírico pertencente ao volume Prosas Bárbaras e que narra história de Korriscosso, um poeta grego entristecido devido à condição em que vive na Inglaterra.

O encontro entre ele e o narrador dá-se num hotel londrino, após uma viagem exaustiva pelo canal da Mancha, vindo do continente, feita por aquele. Costumava ser visto em pé junto a uma janela, solitário, com ar melancólico, olhar parado, embraçando um guardanapo no restaurante do hotel. As descrições longas do narrador sobre o moço são, por vezes, carregadas de metáforas originais que dão grande ênfase à apresentação ao leitor, sobretudo na caracterização da magreza, da aparência esguia e apática de Korriscosso.

Apesar do interesse inicial que o jovem lhe desperta, os cuidados da estadia e as necessidades de viagem tratam de fazer esmaecer a lembrança havida pelo poeta. Tal interesse renasce, entretanto, quando da volta do narrador a Londres e este depara um amigo de anos, Brancolletti, um gordo bonacheirão e de sorriso cativante, porém com vezos de pedófilo, pois é singularmente guloso de rapariguinhas de doze a catorze anos, de preferência louras e impudicas com a palavras.

Este amigo foi quem lhe contou sobre o poeta, pois, como veio a saber posteriormente, exigindo-lhe confidências que satisfizessem sua curiosidade, Brancolletti e o gajo eram amigos e tinham ambos viajado a Europa a trabalho. A revelação de que era grego, entretanto, a princípio o desanima, haja vista uma voga preconceituosa abonar o juízo generalizante de ser o grego um gatuno. Assim, por causa dessa malhada reputação de malandro e verificado o fato de que um livro do autor havia desaparecido do quarto, aquiesceu rapidamente este com a moda difamatória e o considerando-o um bandido.

Nessa noite, por causa do grande movimento no hotel e também devido ao feitio complexo de sua instalação, o narrador perde-se e erra pelos caminhos feitos de corredores, escadas e salas os mais variados. Finalmente, depara um quarto onde acha o poeta debruçado sobre um mesa coberta de papéis, um colarinho e rosário e, entre eles, seu livro que fora espoliado do quarto.

Procedendo com esmerada misericórdia, o autor observa marcas que denunciam o gosto poético do jovem e, da conversa entretida, surge uma simpática atmosfera de confraternização entre eles, ambos poetas e, portanto, irmanados. Daí em diante, Korriscosso conta-lhe sua história entremeada de lacunas: formado em leis e compondo suas primeiras elegias num semanário lírico, aparecem-lhe ocasiões para realizar-se na vida política. Viajou muito, enamorou-se e, num momento em que fora indicado para trabalhar numa alta administração, é rejeitado e refugia-se na Inglaterra.

Nesse país, padece a solidão e o prosaísmo vilão do capitalismo que lhe tira tempo para o trabalho com o espírito. Vive, assim, dias atribulados, quando tem que conviver com a glutonaria e a folgança burguesa no restaurante. Trabalhar derrogatoriamente para atender à baixa necessidade material das elites, enquanto essas se refestelam no seu leito de ninharias, é uma indignidade que sua alma tocada pela sutileza artística, pelo instinto do som, da rima, pelo efeito do drama, não pode suportar.

Em contos como esse, Eça, em vez de caracterizar sociologicamente suas personagens, o faz apenas psicologicamente, ensejando a discussão sobre a problemática das vicissitudes humanas. No caso de Korriscosso, sobre a oposição demérita entre arte e materialismo capitalista, quando este, na sua tendência voraz ao amealhamento, ignora e dessacraliza a arte.

05 dezembro 2007

RENOUATIO

Este blogue foi, desde sua gênese, repositório de toda sorte de impressão que me vinha vindo: às vezes, agia como um típico romântico e meu humor oscilava à sucessão dos fatos. Aqui e ali deixava uma nota de melancolia ou de contentamento à medida que meu espírito sentia os movimentos da vida. Refletia sobre todas as impressões, todas as nuanças e significados que tinham os fatos e as coisas.

Agora, implemento renovação. Dedico-o ao que me tem feito ver sentido na vida: arte e a literatura, as divagações e investigações filosóficas sobre o homem e a existência, porque estamos cá na terra e é nela que sonhamos, sofremos, esperamos, amamos. Mas e o transcendente? Sim, está lá naquela dimensão etérea. Não é alheio a nós, mas nós também não devemos ser alheios à terra.

Muito embora esbarremos na angústia heideggereana e na náusea de Sartre pela impossibilidade de infinito, vivemos aqui o que nos define, o que bem significa o ser no mundo. Nada de fatalismo, apenas existencialismo crítico.

05 julho 2006

SUPREMA VERGONHA


O Brasil sucumbiu aos próprios erros, uma vergonha intolerável diante de uma nação estarrecida em ver um time inoperante. Brasil e França eram dous bêbados em frankfurt, mas o que estava um poucochinho mais sóbrio lançou o outro na sarjeta da humilhação. O que vimnos foi um espetáculo desprezível de egos inflados e um treinador dominado por "donos da equipe"! Suprema vergonha!

28 junho 2006

SOBRE CUMPLEAÑOS

Normalmente não sou afeito a comemorações de aniversário, acho festas como tais bastantes imaturas, perdoem-me. Mas não abro mão de ser felicitado, de receber um abraço, de ouvir cortesias dos amigos, pois lhes faço isso sempre, sempre solícito em demonstrar minha cordialidade e meu amor pelos amigos. Quanto a presentes, agrada-me que sejam simbólicos, não faço exigências, contanto que me sejam dados terna e sinceramente.
Um presente, contudo, que me quadraria muito e esse exijo, não obstante jamais logrei vê-lo, seria gozar da presença de amigos de uma forma íntima, constante e fiel. Meu aniverásrio é dia 1° de novembro, estou a esperar...

23 maio 2006

A literatura, como toda arte, é bilateral; necessita de um emissor e de um receptor para realizar-se. Este blogue só possui o emissor...

11 maio 2006

sabendo a resposta, ainda assim pergunto: Há leitores na internet?
É uma questão crucial. Um filósofo e politólogo italiano, Giovanni Sartori, produziu um interressante opúsculo, em 1991, sobre a função nefasta
da televisão sobre o homem, tirando-o a capacidade de abstração. Em certo sentido, é possível trensferir essa deturpação para a internet, que, devo admitir, não é de toda má.
Para Sartori, cuja obra chama-se "Homo Videns: Televisão e Pós-Pensamento", a televião estaria simplesmente mundando a natureza do ser humano, que deixa de ser homo sapiens (homem que sabe) para torna-se homo videns (homem que vê) inaugurando a era do pós-pensamento. Incapaz de elaborar um pensamento abstrato, o homem se torna um idiota guiado por símbolos e imagens.
Analisando o comportamento de internautas viciados pela rede adentro, é possível perceber essa tendência de condicionar o indivíduo à indústria da incultura e da imbecilidade. Viciados em Orkut e em outras comunidades, em sites de bate-papo sem finalidade útil, em jogos eletrônicos via computador, entre outros, têm se mostrado condicionados a um comportamento limitado e incapaz de ascender ao mundo inteligível, sendo, por isso, seu único guia a pobre simbologia que influncia seus olhos. É lastimável que mães e pais permitam que seus filhos despendam horas diante do computador escravizados por jogos eletrônicos e conversas inúteis, que as casas de intenet (lan house) estejam atulhadas de bufarinhieros de ninharia unicamente para adicionar e conhecer "aquela pessoa interessamteno no Orkut". Saliento como necessário afirmar que não condeno o uso do Orkut, mas apenas a dependência patológica dessa comunidade a que muitos estão sujeitos.
Como havia dito, a internet não é toda má, mas a sua ilimitação quanto aos usos conduz o homem ao meso fim dos que se submetem à ditadura imbecilizante da televisão. A multiplicidade e a complexidade de sons e imagens que a internet oferece têm minado a capacidade de pensar de alguns. Parece que, como a televisão, ela criou e continua a criar "um homem que não lê, que revela um alarmante entorpecimento mental, um molóide alimentado pelo vídeo (ou monitor), um potencial apedeuta viciado na vida dos jogos eletrônicos!"

05 maio 2006

O fim de semana se acerca e meu tédio também, pois esse é o fato: eu odeio dias assim, feriados e fins de semana. Sou anormal? Evidente que não! Sou apenas uma pessoa que teve o infortúnio de, ainda criança à mercê das graças da mãe, ser deslocado da capital, onde nasci, para uma cidade intolerável, alvo constante de minhas queixas.
Sabei-lo: nos feriados e dias afins, pratica-se absolutamente nada na "briosa" cidade em que finquei residência. Nada no sentido imediatamente produtivo. As ruas com seus bares malditos abertos e repletos de bêbados sorrindo suas indignidades, moçoilas desocupadas a dar olhadelas pseudo-avaliativas aos gajos que lhe passam pelas vistas de putanas. Crianças odiosas correndo pelas ruas mais estreitas, atulhando o caminho com seus brinquedos toscos e ridículos e causando vozerio constituído de gritinhos irritantes; na rua onde morava, antes de casar-me, a cozinha do inferno, é freqüente um ajuntamento de marmanjos inúteis, verdadeiros vermes sociais, a ouvir os tipos de música mais exasperantes possíveis, considerem que falo dos amaldiçoados forró, pagode, samba e o enojante brega. Meu Deus, esses estilos devem ter sido concebidos quando algum demônio, numa crise diarréica, evacuou toda sua impureza na terra e os tolos sem critérios abriram suas bocas a receber tudo gorja adentro.
Perdoem-me a revolta, por favor! É possível que minha cólera esteja a fuzilar alguém, que me lê, que nutre simpatia pelas classes musicais acima citadas. Mas não me condenem, pois tenho que padecer isso nos dias a que chamam feriados e fins de semana. O lugar não permite opção. A capital permitiria? Não é o melhor dos lugares, mas lhe dou o benefício da vantagem sobre Satuba pelo simples fato de lá haver bibliotecas, lojas de alfarrábios, museus, teatros, chás literários com os que posso chamar de amigos e pessoas no mínimo não provincianas que não se atenham às aparências para processar um julgamento definitivo sobre alguém. "Em todo lugar há pessoas assim!", dizeis-me, caros leitores, mas eu vos replico: "Ao que parece, a atmosfera suburbana possui algum poder condicionante sobre os hábitos de certas pessoas, que as inclina para uma forma deliberada de vício!"
Mas o fim de semana está aí, paciência!

25 abril 2006

Voluptas Intelectus - Isso mesmo, prazer do Intelecto

A Faculdade de Letras é melhor do que eu supunha, refiro-me ao curso não à infra-estrutura, que deixa muito a desejar. As aulas de Lingüística I, por exemplo, são uma cativante viagem às ideias revolucionárias de Ferdinand Saussurre. Leitura obrigatória para todo o curso, sobretudo agora no primeiro período: Curso de Lingüística Geral, de Saussurre e Introdução à Lingüística, de Fiorin.

18 abril 2006

DIES INITIALIS

Ontem foi o primeiro dia do ano letivo na UFAL - Universidade Federal de Alagoas, para os de fora que me visitam - e não me impressionei com as ocorrências que lá houve, simplesmente por que não houve ocorrência alguma! Que lástima! Primeiro dia de aula e os professores se quitam de aparecer. NO meu bloco, o de Letras, apenas uma faixa em quatro línguas lembravam aos novatos que aquilo era uma faculdade tal o pasmatório em que se tornou o lugar com a ausência de professores. Uma estudante sôfrega do teceira ano veio-nos dar as boas-vindas. Parecia, a princípio, um pouco atabalhoada, mas depois se refez tranquilamente.
Não superestimei a organização e a infra-estrutura da UFAL, pois certamente me despi das ilusões de colegial recém-formado há anos acerca do que podia encotrar na nossa briosa Universidade Pública Alagoana, mas esperava, ao menos, um palpável respeito com os alunos, sobretudo com que os chegam com intuito de senhorear-se do conhecimento lá ministrado. Mas, como dizia Machado de Assis, "vá lá", esperemos o correr dos dias nas salas e corredores da UFAL.

13 abril 2006

Vou-me seguindo aqui, malgrado o abandono dos que honro! Pois lamento esta solidão maldita a que me condenou a vida no âmbito social. Não fosse eu um homem casado, optaria sem hesitação pelo monastério e levaria minha existência nos redutos longínquos do isolamento!

07 abril 2006

Parece-me que, às vezes, minha vida não é muito distinta da do poeta apresentado no conto da postagem anterio;
Por mais das vezes, sinto-me como um maldito degredado deste mundo, condenado a lamentar minha orfandade social...sem amigos próximos! Queres saber mais, visitante, lê o drama "Macário", de Álavares de Azevedo, e terás uma visão aproximada de como me sinto!