Segue o catálogo de palavras que distinguem o vocabulário luso do tupiniquim:
Portugal Brasil
Baliza Trave (de futebol)
Banda Desenhada Revista em Quadrinhos
Bairro da Lata Favela
Banheiro Salva-Vidas de Praia
Bebedeiro Mamadeira
Berlinde Bola de Gude, Chimbra
Boléia Carona
Bolo-Rei Bolo de Panetone (comido no Natal)
Botequim, loja de bebidas de café Loja de Bebidas Alcoólicas
Brigada de Trânsito Polícia Rodoviária
Burgo Pequena povoação
Qualificação Classificação
Quezília Aversão, Antipatia
Pastilha Elástica Chiclete
Tira-Cápsulas Abridor
Hospedeira de Bordo Aeromoça, Comissária de Bordo
Lixívia Água Sanitária
Elétrico Bonde
Sebenta Apostila
Piroso Brega
Boceta Caixa (no Brasil, na língua popular, boceta significa “vulva”)
Descapotável Conversível
Picheleiro Encanador
Penso Rápido Esparadrapo
Agrafador Grampeador
Peúgas Meias
Coima Multa
Peão Pedestre (No Brasil, peão é usado p/ designar o amansador de cavalos)
Paragem Ponto de Ônibus
Sandes Sanduíche
Calcinha Cueca
Capachinho Peruca
Sumo Suco
Bica Cafezinho
Autoclismo Descarga
Autogol Gol Contra
Autocarro Ônibus
26 abril 2005
22 abril 2005
Ora, pois!!!
Muito interessado nas difrenças entre o Português aqui falado e o falado em Portugal, resolvi compilar aqui alguns termos e expressões que nos difrenciam, brasileiros e lusos, no uso diário da língua.
Portugal Brasil
A bandeiras despregadas Com toda a a expansão
A capucha Escondidamente, sem alarde
A capucha Escondidamente, sem alarde
A colaço A propósito
A eito Sem interrupção
A Deus misericórdia Graças à misericórdia de Deus
A falsa fé A traição, deslealmente
A finca Com empenho, com afinco
A fito Atentamente
A furtapasso Depressa
A lanço De propósito
A mão tenente À queima-roupa, de muio perto
A unhas de cavalo Com maior rapidez
A sabor À vontade, a bel-prazer
A vozes Em altos gritos, a plenos pulmões
Ao viés Obliquamente
Cacete, o pão francês; Pequeno bastão de madeira
Cachopa moçoila; moça pequena
Calçada O que aqui conhecemos por rua
Camisola Camisa
Carniçaria Açougue
Carniceiro Além das acepções comuns ao Brasil, signinifica também
açougueiro
Carta de condução Carteira de motorista
Chapéu de chuva Guarda-chuva
Casa de banho Banheiro
Pai Natal Papai Noel
Bicha Fila
Pica, injeção No sentido vulgar, pênis
Pivô de telejornal Âncora de telejornal
Pomada para sapatos Graxa para sapatos
Puto, garoto masculino de puta - meretriz
Comboio Trem
Ceroulas Cuecas de homem
Morgue Necrotério
Gorja Garganta
Leitor de cassetes Toca-fitas
Viado, no sentido de antigo
pano listrado Homossexual masculino, pederasta
Gajo Palavra equivalente a "o cara", designativo indefinido de
homem, no Brasil
Giro Bonito, engraçado, interessante
18 abril 2005
AFORISMO DE OSCAR WILDE
“Quão afortunados são os atores! Cabe-lhes escolher se querem participar de uma tragédia ou de uma comédia, se querem sofrer ou regozijar-se, rir fartamente ou esfazer-se em lágrimas; isso, porém, não sucede na vida real. Quase todos os homens e mulheres são forçados a desempenhar papéis para os quais não têm a menor propensão. O mundo é, de fato, um palco, mas os papéis são pessimamente distribuídos.”
“Aquele que se mantém o mais longe possível do seu século é, na verdade, o que melhor o espelha.”
“As boas intenções são a ruína do mundo! Os homens que, de algum modo, conseguiram alterar a sociedade não tinham intenção alguma.”
“O que vem a ser o cínico? O homem que conhece o preço de todas as coisas e o valor de nenhuma delas.”
“Os homens desejam sempre ser o primeiro amor de uma mulher; este é um efeito da sua insensata vaidade. As mulheres têm um instinto mais sutil: elas desejam ser o último amor de um homem.”
“Aquele que se mantém o mais longe possível do seu século é, na verdade, o que melhor o espelha.”
“As boas intenções são a ruína do mundo! Os homens que, de algum modo, conseguiram alterar a sociedade não tinham intenção alguma.”
“O que vem a ser o cínico? O homem que conhece o preço de todas as coisas e o valor de nenhuma delas.”
“Os homens desejam sempre ser o primeiro amor de uma mulher; este é um efeito da sua insensata vaidade. As mulheres têm um instinto mais sutil: elas desejam ser o último amor de um homem.”
11 abril 2005
CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS JÁ!!!
O colunista Fiuza, em sua matéria “O Papa Empalhado”, a começa com a intercalação das seguintes frases, não sei se tiradas por ele ao convívio com os jornalistas que, nessa semana de exéquias papais, ouviram ou leram sobre o afã que tomou as atalaias da carcaça do papa, ou não sei se imaginadas por ele diante do referido afã: “Ajeita o pé do papa que tombou de novo! A cabeça tá balançando, não inclina! Fecha a boca do Papa!”.
Essas frases, se verdadeiramente proferidas ou não, num dos maiores espetáculos jornalísticos de todos os tempos, apontam para uma realidade infeliz e perversa no âmbito da religião – o declínio da idealidade espiritual. Com efeito, tal fato não é tão inédito e nem deve provocar surpresa nos observadores para quem importa a preservação da pureza doutrinária que a Igreja Católica abandonou há séculos, com suas práticas idolátricas, seus dogmas desafiadores da sã doutrina exarados em espicilégios e hagiografias múltiplas.
Ultrajou-me por demais ver durante a semana dos funerais um verdadeiro espetáculo de veneração a uma carcaça sem vida. Longe de mim maldizer um morto, ou um vivo, não faz diferença, quando não há razões imediatas, mas eu lastimo a degradação espiritual a que humanidade chegou, ao erguer um ídolo entre ela e o próprio Deus, verdadeiro e único objeto de veneração.
Como já disse o próprio Fiuza: “Se os fiéis que entopem os funerais do papa declaram sentir-se, diante de sua figura mumificada, como se estivessem na presença de Deus, é preciso parar tudo e mandar todo mundo de volta à primeira comunhão. Lição número um: Deus é espírito.” Sim, Deus é espírito e, conforme deitou Paulo nas páginas bíblicas, “é necessário que todo aquele que dEle se aproxima para adorá-lo, o façam em espírito e em verdade”. Em espírito, pelo reconhecimento de que ELE não está limitado a espaços nem a corpos, para receber veneração materialista; em verdade, pelo conhecimento que a bíblia registra, de que só existe um mediador entre Deus e os homens, a saber: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual se deu a si mesmo em resgate por todos, para servir de testemunho a seu tempo;” (1 Timóteo 2.5).
O culto cadavérico visto a olhos pasmos pelos sinceros é uma prova cabal de que Deus foi substituído no coração da humanidade, e a Babilônia Espiritual embriagou-se, naquele momento, com a adoração cega e mal direcionada de uma turba desinformada das verdades eternas, “levada em roda pelos ventos de doutrina”, destronando, no centro de sua vida, o Deus único e perfeito; derribando o seu altar e substituindo pelo de um homem comum como todos os homens, imperfeito e perecível como todos os homens.
A imagem mórbida do papa foi conduzida perante a multidão extasiada, num claro simbolismo estéril e enganoso em que a religiosidade se confundia com mercadologia política. Lamente-se!
Essas frases, se verdadeiramente proferidas ou não, num dos maiores espetáculos jornalísticos de todos os tempos, apontam para uma realidade infeliz e perversa no âmbito da religião – o declínio da idealidade espiritual. Com efeito, tal fato não é tão inédito e nem deve provocar surpresa nos observadores para quem importa a preservação da pureza doutrinária que a Igreja Católica abandonou há séculos, com suas práticas idolátricas, seus dogmas desafiadores da sã doutrina exarados em espicilégios e hagiografias múltiplas.
Ultrajou-me por demais ver durante a semana dos funerais um verdadeiro espetáculo de veneração a uma carcaça sem vida. Longe de mim maldizer um morto, ou um vivo, não faz diferença, quando não há razões imediatas, mas eu lastimo a degradação espiritual a que humanidade chegou, ao erguer um ídolo entre ela e o próprio Deus, verdadeiro e único objeto de veneração.
Como já disse o próprio Fiuza: “Se os fiéis que entopem os funerais do papa declaram sentir-se, diante de sua figura mumificada, como se estivessem na presença de Deus, é preciso parar tudo e mandar todo mundo de volta à primeira comunhão. Lição número um: Deus é espírito.” Sim, Deus é espírito e, conforme deitou Paulo nas páginas bíblicas, “é necessário que todo aquele que dEle se aproxima para adorá-lo, o façam em espírito e em verdade”. Em espírito, pelo reconhecimento de que ELE não está limitado a espaços nem a corpos, para receber veneração materialista; em verdade, pelo conhecimento que a bíblia registra, de que só existe um mediador entre Deus e os homens, a saber: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual se deu a si mesmo em resgate por todos, para servir de testemunho a seu tempo;” (1 Timóteo 2.5).
O culto cadavérico visto a olhos pasmos pelos sinceros é uma prova cabal de que Deus foi substituído no coração da humanidade, e a Babilônia Espiritual embriagou-se, naquele momento, com a adoração cega e mal direcionada de uma turba desinformada das verdades eternas, “levada em roda pelos ventos de doutrina”, destronando, no centro de sua vida, o Deus único e perfeito; derribando o seu altar e substituindo pelo de um homem comum como todos os homens, imperfeito e perecível como todos os homens.
A imagem mórbida do papa foi conduzida perante a multidão extasiada, num claro simbolismo estéril e enganoso em que a religiosidade se confundia com mercadologia política. Lamente-se!
06 abril 2005

Oh! eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
Árabe errante, vou dormir à tarde
A sombra fresca da palmeira erguida.
Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.
Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas,
Minh'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas ...
E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: impossível!
Eu sinto em mim o borbulhar do gênio,
Vejo além um futuro radiante:
Avante! brada-me o talento n'alma
E o eco ao longe me repete avante!
O futuro... o futuro... no seu seio...
Entre louros e bênçãos dorme a glória!
Após um nome do universo nalma,
Um nome escrito no Panteon da história.
E a mesma voz repete funerária:
Teu Panteon a pedra mortuária!
Morrer é ver extinto dentre as névoas
O fanal, que nos guia na tormenta:
Condenado escutar dobres de sino,
Voz da morte, que a morte lhe lamenta
Ai! morrer é trocar astros por círios,
Leito macio por esquife imundo,
Trocar os beijos da mulher no visco
Da larva errante no sepulcro fundo,
Ver tudo findo... só na lousa um nome,
Que o viandante a perpassar consome.
E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem Por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, qu'inda mesmo florido,
Sombra de morte no ramal encerra!
Vivo que vaga sobre o chão da morte,
Morto entre os vivos a vagar na terra.
Do sepulcro escutando triste grito
Sempre, sempre bradando-me: maldito!
E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita..
Levei aos lábios o dourado pomo,
Mordi no fruto podre do Asfaltita.
No triclínio da vida novo Tântalo
O vinho do viver ante mim passa...
Sou dos convivas da legenda Hebraica,
O estilete de Deus quebra-me a taça.
É que até minha sombra é inexorável,
Morrer! morrer! soluça-me implacável.
Adeus, pálida amante dos meus sonhos!
Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!
Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
Os prantos de meu pai nos teus cabelos.
Fora louco esperar! fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro a terra,
Por glória - nada, por amor a campa.
Adeus... arrasta-me uma voz sombria,
Já me foge a razão na noite fria!...
Castro Alves, em 1864.
29 março 2005
23 março 2005

Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.
Quero um pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas...
Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
De transparente túnica através:
Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus... toda nua, da cabeça aos pés!
Raimundo Correia, parnasiano
18 março 2005
DESENTRANHAMENTO
CERTAS PESSOAS HÁ QUE SÃO TÃO IMATURAS E ABESPINHANTES, TÃO MISERAVELMENTE DESPROVIDAS DE SENSIBILIDADE, TÃO TENDENTES A ORGULHAR-SE DE SEUS ATOS DESMERECENTES, A FAZER GLÓRIA DO BALDÃO QUE A SUA EXISTÊNCIA SE TORNA UM INSULTO. E, PARA DESGRAÇA MAIOR, ACHAM QUE PODEM LOGRAR SE POSICIONAR DE BONS-MOCISTAS! VÃO COM MIL SATANASES TODOS ELES, PRINCIPALMETE TU, PIRRALHA RIDÍCULA!
16 março 2005

E perto avisto porto
Imenso, nebuloso, e sempre noite,
Chamado Eternidade!
Como é tão belo o sol! Quantas grinaldas
Não tem de mais a aurora!!
Como requinta o brilho a luz dos astros!
Como são recendentes os aromas
Que se exalam das flores! Que harmonia
Não se desfruta no cantar das aves,
No bater do mar, e das cascatas,
No sussurrar dos límpidos ribeiros,
Na natureza inteira, quando os olhos
Do moribundo, quase extintos, bebem
Seus últimos encantos!
10 março 2005
09 março 2005
BEM-VINDOS AO REINO DA ESCURIDÃO
Por meus pecados, Deus me tem punido! Tem estilhaçado meus ossos, enfermado minha carne e ensandecido meu espírito.
A FONTE DE SANGUE
A FONTE DE SANGUE
Muitas vezes parece jorrar o meu sangue
Como uma fonte - então me sinto vago, exangue;
Ouço-o como um murmúrio surdo em minha vida
Mas me atormento em vão, sem achar a ferida.
Pela cidade inteira a escorrer, vai formando
Sobre um campo fechado, ilhas de vez em quando,
E vai matando a sede a cada criatura
Pondo em tudo o que toca uma rubra moldura.
Tenho pedido sempre aos vinhos capitosos
Esquecer, por um dia, essa angustia tão rara,
- O bom vinho que à vista e que ao ouvido aclara.
E só no amor achei os sonos generosos,
Mas o amor para mim a um leito em brasas, feito
Para um sofrer cruel! E um inferno em meu peito!
O amor me tem ludibriado – pois amar é, às vezes, um passo ao inferno torvo – me tem expugnado, sojugado meu coração plangente.
LESBIA
Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.
Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passa, lenta
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...
Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.
Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os letargos,
Os ópios de um luar tuberculoso.
04 março 2005

"O Jardim das Delícias Terrenas", de Jerônimo Bosch. Esse genial pintor sempre me impressionou por seus temas perturbadores: o demoníaco, o horrendo, tudo aquilo que convulsiona o sentimento religioso. Essa aí é apenas a zona central do painel, que representa a transição da humanidade do seu estado de graça e felicidade para a perdição no Inferno. Essa zona, que aí vedes, mostra o homem caído nos prazeres da carne. É magnífica essa obra. Além de Bosch, agrandam-me Fuseli e os Bruegel.
02 março 2005
RECRUDESCÊNCIA
Nos últimos dias tenho sentido uma aberradora depressão de espírito. Por que me veio isso? Desejai saber? Recrudescência, parece-me. Uma amiga "blogueira" confessou sua condição diante do TOC (o famigerado Transtorno Obsessivo Compulsivo) e eu, ao sabê-lo, meti-me a relembrar os meus dias patológicos, quando odiosamente me via agrilhoado pelo impulso mórbido de repetir palavras agradáveis e auto-lisonjeiras para reprimir "as vozes na minha cabeça" que me lançavam em rosto um desafio ingrato. Era um embate terrível!!!
Os sintomas se exprimiam claramente: agitação agônica, pensamento obsidioso em contradizer qualquer idéia de significação desmerecente que não me desse descanso, a ponto de exteriorizar a convulsão íntima em arroubos de indignação comigo mesmo.
Nesses volteios de minha memória, surpreendi-me fazendo-me interpelações refutativas, numa confrontação flagelante. Parece-me que o lembrar daqueles dias fez-me recrudescer o maldito TOC!
25 fevereiro 2005
Durante anos, meu modo de viver não me permitiu a soltura. Senti-me agrilhoado. Olhava em volta, o que via? Um mundo-ilusão, distinto, brutalmente distinto do meu ideal. Eu buscava o infinito, mas ao redor, via o embate de correntes contrárias. Um negro eflúvio doentio que me saturava pulmões, brisas pestilentas a cortar o ar viciado - era isso a sensação de sentir-me de um estranho, um ser eternamente deslocado.
Hoje, após atrozes tentativas de adaptação, não me desfiz desse sentimento. Ele tão real e presente, necessário à inquietação interior e esta para fomentar o inconformismo, a rebeldia perante o torvelinho horrendo ao ver ,dia a dia , a imutabilidade patológica do mundo. Ele conduziu-me, posso dizer, à convicção terrível de um estado de solidão a que a alma dificilmente fugirá. Tenho-o comprovado na facildade com que as pessoas me evitam, mesmo sem me conhecerem de todo. Sou um inquieto, mas isso não é mau, pois Aristóteles nos aduziu: "Nullum ingenium sine mixtura demenciae."
Cito Camilo, um dos maiores poetas portugueses, com o propósito de reforçar o que digo:
Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...
Saudade desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...
Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desregrada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,
Sem ela o coração é quase nada:
Um Sol onde expirasse a madrugada
Porque é só madrugada quando chora.
18 fevereiro 2005
ATENA

Esta é Tacyana, mas chamem-na de Mel, Melzinha, Palas Atena ou qualquer outro apelido terno que lhe caia bem. Eu aprendi a chamá-la de Atena. Foi algo repentino assim que a conheci. Força do hábito que sempre me induz a congnominar as pessoas que conheço, como se procurasse transmitir no nome o que elas são, ou o que me passam.
17 fevereiro 2005
Ecce Vita
Um fato corriqueiro em minha vida foi o gosto sepulcral, sombrio que manifestei amiúde. Desde verdes anos, apreciei poetas como Álvares de Azevedo, Byron, Junqueira Freire para quem a morte, o mistério, a dor e a agonia interior sempre foram temas atraentes, apesar de ter despertado para a poesia através de Camões, pelo seu lirismo amoroso.
O estranhamento social foi inevitável. Amigos, parentes e aqueles a quem eu conhecia de "vista e de chapéu" reagiam entrando a tachar-me de louco, doente, que não conhecia como viver os contentamentos da vida; para eles, eu era arredio, absenteísta, macabro e tantas outras qualificações com as quais desenvolvi tolerância e, por fim, gosto. Chamem-me de masoquista se quiserem, mas continuamente apreciei essa condição em meus poetas. Para mim, ainda é e sempre será um modelo a seguir a conduta do homem dos séculos passados, misteriosos, sombrios e, por isso, encantadores.
Como é natural, a interioridade do homem deve se projetar na sua exterioridade de modo a assumir a esta, dominá-la. Dessa forma, sempre me fascinaram a palidez "tuberculosa", sobretudo nas mulheres, os cabelo revoltos e longos, o olhar lânguido de melancolia, quebrado, desfalecente de que promana um tedium vitae constante. Não é a imagem de um esquálido alquebrado que aqui exponho, pelo contrário, nesses indivíduos abundam vitalidade, mas esta é visivelmente filtrada pelo spleen da vida, responsável pela sua inquietação interior. Um revoltado, talvez, a quem incomoda horridamente a mesquinhez e a mediocridade do cotidiano de uma sociedade estandardizada, massificada, cativa de valores frívolos criados pelos meios de comunicação. Lamentavelmente, hoje é a mídia banal o coreógrafo da humanidade. São as malditas novelas de televisão, os programas de tele-realidade (reality show), de auditório em que um apresentador balofo convida um auto-intitulado especialista em moda para criticar o modo como se vestem certas pessoas a quem atribui o ridículo título de celebridade. O que é ser uma celebridade hoje? É participar de um patético programa de tele-realidade, cunhando frases vazias de significado, para vê-las repetidas exaustivamente (que desgraça!) em qualquer esquina? É interpretar um pândego idiota numa novela, formar um par romântico com alguma atriz de belas formas? É ser um cantor de ninharias, arrogando-se o dom de versejar, golfando leviandades em forma de música (má música, é claro), divertindo as massas inconsultas de mulheres néscias afogadas no seu orgasmo profano e torpe, ouvindo gritos histéricos? Portar-se-iam assim diante de Aristóteles, de Kant ou de Nietzsche? Não que eles precisassem dessa bambochata risível como forma de lisonja, mas esses entusiastas do nada, esses propagandistas do relaxamento sentiriam, de alguma forma, qualquer comoção interna por estarem diante homens superiores a qualquer cantorzinho apregoador de nulidades ou a qualquer atorzinho cujo valor não vai além da "beleza" que estampa, se é que a beleza é um valor? Temo que não.
Não sou tão radical e furioso quanto um amigo, que me disse, certa feita, que não quer ver a massa acender do lodo nauseabundo em que se encontra, unicamente quer vê-la degradar-se e resfolegar nas próprias baixezas. Todavia, às vezes, sou compungindo por um sentimento de total aversão e chego a concluir que a humanidade é uma grande esperança perdida, com raríssimas exceções!
Lembrei-me de um poema que li no sítio Carcasse, adorei-o, pois reflete a tragédia suprema que é o tédio da vida. O autor se chama Pereira da Silva:
NIHIL
Dia parado entre nevoento e enxuto.
A natureza como semimorta.
Quanto aos vencidos, Musa, desconforta
Esta infinita sugestão de luto!
Quanto a mim, de minuto a minuto,
Ouço alguém...Alguém bate à minha porta...
Quem é? Quem sabe? Uma saudade morta,
Cousas tão d'alma que eu somente escuto.
Nesta indecisa solidão sombria
Sem cor, sem som, meio entre noite e dia,
Como que a morte a tudo, a tudo assiste...
Como que, pela terra desolada,
A consciência univesal do Nada
Deixa um silêncio cada veza mais triste...
15 fevereiro 2005
Maceió
Essa paisagem se me apodera, às vezes, dos sentidos, quando me deixo aí estar. A visão da praia do Jaraguá, do mirante de São Gonçalo, dominando a extensão de casas e edifícios, é um convite indubitável à reflexão. Há tempos, é verdade, que o não visito e gozo de sua amenidade. Maceió é bela, mas lamentavelmente mal dirigida.
14 fevereiro 2005
Eu faço versos como quem choraDe desalento... de desencanto...Fecha o meu livro, se por agoraNão tens motivo nenhum de pranto.Meu verso é sangue. Volúpia ardente...Tristeza esparsa... remorso vão...Dói-me nas veias. Amargo e quente,Cai, gota a gota, do coração.E nestes versos de angústia roucaAssim dos lábios a vida corre,Deixando um acre sabor na boca.- Eu faço versos como quem morre. (Manuel Bandeira)
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